Recentemente, assisti um vídeo do deputado estadual Renato Freitas (PT-PR) denunciando uma fake news da qual foi vítima. O portal Metrópoles, de Brasília, cujo proprietário é o ex-senador e empresário Luiz Estêvão, publicou em 3 de agosto, na coluna de Andreza Matais, matéria assinada por André Shalders que tinha a seguinte manchete: “Deputado do PT vai a evento de lançamento de livro de Marcinho VP, chefão do CV”. Para respaldar a manchete, foi publicada uma foto do parlamentar ao lado de uma simpatizante que segurava o livro citado.
Sem qualquer esclarecimento sobre as circunstâncias daquela imagem e, o que é pior, sem ouvir o parlamentar, a notícia viralizou exponencialmente. Reproduzida por influenciadores da extrema direita e outros portais menores, a sucessão de comentários gerados impressionou pelos adjetivos impublicáveis, insultos e mentiras. Nem vale a pena aqui reproduzir para não causar náuseas nos leitores. Mesmo após o esclarecimento do parlamentar, o Metrópoles manteve a manchete. Depois, o jornalista André Shalders decidiu retirar a postagem do ar.
Para além da didática informação de como se fabrica uma fake news, o vídeo de Renato Freitas é ilustrativo da guerra híbrida a qual se refere o filósofo Renato Janine Ribeiro, em entrevista recente ao canal de YouTube China Global News. Segundo ele, vivemos a preparação de um golpe contra a democracia brasileira, cuja artilharia vem exatamente das redes sociais (link).
Mas, temos aí um componente adicional da guerra híbrida que é o uso da imprensa – ou de parte dela – como produtora contumaz de mentiras contra adversários políticos. No caso do Metrópoles, comandado por um empresário que já foi condenado por corrupção, não é de se estranhar tal comportamento.
O fato é que cada vez mais temos um jornalismo sendo usado para finalidades políticas onde não cabe a máxima da profissão: compromisso com a verdade factual. Agora, esse jornalismo de esgoto, para usar a expressão de Luís Nassif, não se sustenta sem a adesão de jornalistas que, por necessidade de sobrevivência ou mau-caratismo, servem gostosamente ao seu patrão sabe-se lá em nome de qual ética.
Indagado sobre o vídeo do deputado Renato Freitas, o repórter André Shalders se limitou a afirmar que “é um direito do deputado não gostar da reportagem”. O problema é que não se trata de reportagem, porque a publicação estava baseada na falsa premissa de que o parlamentar prestigiou um inexistente lançamento de um livro de Marcinho VP, condenado pela Justiça por liderar a facção criminosa Comando Vermelho. O evento se realizou no Quilombo do Campinho e o que houve ali foi a Flip Preta, onde autores afrodescendentes divulgaram seus livros. Nenhum era do Marcinho VP. Portanto, a foto com uma simpatizante nada prova contra o deputado.
Infelizmente, para quem prefere segurar armas ao invés de livros, para quem prefere a mentira ao invés da verdade, não resta dúvida que o apoio de um jornalismo de esgoto vem bem a calhar.