Toda semana vemos manchetes sobre inteligência artificial. Ferramentas se tornam cada vez melhores, criam conteúdos ultrarrealistas, desenvolvem como os melhores programadores e a partir de um comando fazem o trabalho de uma semana em 10 minutos. Ao ler tudo isso, a impressão é de que tudo mudou completamente, e, talvez, apenas nós tenhamos ficado para trás.
Mas a verdade é que o mundo de hoje é muito parecido com o de 5 anos atrás. Os problemas profissionais são similares, bem como os empregos disponíveis e a forma de trabalhar. Afora algumas mudanças superficiais, temos tudo como era antes, mas agora com uma camada de AI.
Isso não é um paradoxo. É verdade que a IA traz disrupção, que suas aplicações têm evoluído rápido e suas vantagens (e riscos) são inegáveis. Mas, como em todas as disrupções anteriores (como da eletricidade ou da digitalização), é preciso tempo para que a revolução se realize. Apesar do potencial de ruptura, os avanços levam décadas até alcançarem maturidade em larga escala. Com a IA, não será diferente.
Um dado ilustrativo vem do National Bureau of Economic Research: embora 40% dos adultos norte-americanos já tenham utilizado ferramentas de IA generativa, a intensidade desse uso ainda é baixa. A maioria dedica menos de 5% do tempo de trabalho a essas ferramentas, o que resulta em ganhos de produtividade inferiores a 1%. O entusiasmo existe, mas sua materialização nos fluxos reais de trabalho ainda é incipiente.
Isso não significa que a IA falhou. Significa que a expectativa sobre sua velocidade de transformação precisa ser ajustada. Há um descompasso entre o que os modelos são capazes de demonstrar em ambientes controlados e o que de fato se integra, com consistência, aos processos da vida real.
As barreiras não são apenas técnicas — são culturais, legais e éticas. Envolver IA em decisões ou ações críticas exige novas estruturas de governança, capacidade de lidar com implicações regulatórias e um olhar atento aos impactos sociais da automação.
Ainda assim, há uma diferença relevante em relação às revoluções tecnológicas anteriores: ela acontece num mundo já conectado e digitalizado. Isso permitirá que sua curva de maturação seja mais rápida — embora ainda estejamos falando de uma década, e não de um trimestre.
Esse horizonte nos oferece tempo para preparar pessoas, processos e políticas. Tempo para evoluir individualmente no uso estratégico da tecnologia, e para que a sociedade debata, com profundidade, os contornos éticos, distributivos e regulatórios dessa nova era.
Não se trata de ignorar a urgência da transformação. Trata-se de compreendê-la em sua complexidade. O que veremos ao longo dos próximos anos é menos uma explosão e mais uma sedimentação: a IA se tornando, aos poucos, parte invisível das estruturas decisórias, das interfaces com o consumidor, da lógica operacional dos negócios. Até que, de repente, parecerá que o mundo sempre foi assim.
A disrupção é verdadeira. Mas ela virá no compasso do mundo real — e não no ritmo das promessas de Silicon Valley.