Ainda que elas possuam nível de excelência profissional, atenção e formação superior, a
engrenagem que move a indústria insiste em desvalorizá-las salarialmente e deixá-las
abaixo na pirâmide hierárquica.
Mesmo com formação superior, talento e dedicação, o público feminino ainda
enfrenta um verdadeiro “Muro de Berlim” para alcançar cargos sêniores,
executivos ou a sonhada posição de CEO. Participamos das mesmas reuniões,
fazemos o mesmo trabalho, mas seguimos com a mesma estatística: apenas 35%
dos cargos de alta gestão são ocupados por mulheres, segundo a Diversitera.
Eu tenho uma crença que o cenário feminino no mercado de trabalho parece, ou é,
na verdade, tão fundo quanto “O Poço” (2019) da Netflix. Além de enfrentar a baixa
representatividade, as oportunidades de crescimento não chegam no mesmo
ritmo para homens e mulheres, ainda que as funções, currículos e qualificações
sejam semelhantes.
Mesmo com tantos desafios, é justamente nesses ambientes “hostis” em que nós
nos destacamos. Construímos formas de liderar que combinam inteligência,
escuta ativa e sensibilidade, sem abrir mão da firmeza, e desenvolvemos
habilidades para resolver problemas complexos, conduzindo equipes com empatia e
mostrando um equilíbrio raro entre resultado e humanidade.
Ano após ano, cada vez mais as mulheres têm rompido rótulos e assumido
funções estratégicas em empresas e organizações. Elas vêm transformando a
forma de liderar, criando ambientes mais justos e cooperativos. Quando chegam a
cargos de decisão, promovem mudanças que impactam os negócios e a
engrenagem que faz mover as indústrias.
Existiu, durante muito tempo, uma falsa ideia (que eu não sei quem assinou) de
que liderar exige um perfil masculino. Por isso, as mulheres são muitas vezes
direcionadas para funções de apoio ou organização, enquanto seus méritos técnicos
são questionados quando buscam posições de comando. Até mesmo aquelas que
conseguem romper essa barreira, muitas vezes tomam para si comportamentos
masculinizados, tratando desafios, atritos e crises de maneira bélica, dando tapas
na mesa e esbravejando como um verdadeiro “macho alfa”.
Essa cultura limita não só as oportunidades, mas também impacta a autoconfiança
e a permanência delas no mercado de trabalho. A ausência de referências
femininas em cargos de liderança faz com que muitas não consigam se
enxergar nesses espaços, dificultando ainda mais o sonho do topo. Para mudar
esse cenário, não basta abrir portas. É preciso garantir que essas portas levem a
espaços seguros e acolhedores, onde as mulheres possam crescer, errar, aprender
e serem reconhecidas por seu valor.
Equidade não é uma gentileza, é uma questão de justiça, fundamental para
construir um mercado de trabalho mais inteligente, justo e inclusivo.
Lília Lopes é Diretora de Publicidade na Prefeitura Municipal de Salvador (PMS),
especialista em Comunicação Pública e lideranças multigeracionais.