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PRIMEIRO ANO DE LULA3 por Marco Piva

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Mesmo faltando algumas pautas importantes para votação do Congresso Nacional, é possível analisar como foi este primeiro ano do governo Lula3.

De saída, temos que destacar a volta do Brasil ao cenário internacional após um inverno tenebroso provocado pelos equívocos da política externa do ex-presidente Jair Bolsonaro. Lula tem credibilidade mundial construída ao longo dos seus mandatos anteriores. Presidentes, chefes de Estados, reis, rainhas, todos querem um minuto da atenção de Lula e não para falar, mas para ouví-lo.

O tema do clima alcança o Brasil em cheio por conta do nosso potencial em recursos naturais que se traduzem em uma capacidade de produzir 85% de energia limpa do total que precisamos. E ainda com grande condição de aumentar essa produção a partir das energias eólica e solar, abrindo as portas para uma total autonomia nacional.

Com a ministra Marina Silva, outra liderança igualmente reconhecida mundialmente, sem dúvida se pode esperar avanços na lição de casa interna – maior controle do desmatamento, por exemplo – e na lição de casa externa – compromisso com os objetivos do milênio.

No campo econômico, a reforma tributária é um tema que pelo menos caminha, apesar da dificuldade de encontrar consensos mais amplos. Há 30 anos se fala disso, mas nunca houve pelo menos uma proposta que saísse do papel. Na mesma linha foi elaborada a proposta de um novo arcabouço fiscal para destravar investimentos públicos tão necessários ao mesmo tempo que garante compromissos com a redução do déficit fiscal, perseguindo a meta de um improvável déficit zero. A inflação em queda, a diminuição da taxa de juros e o aumento do número de empregos formais são bons sinais que afastam o temor gerado pela nomeação de um ministro que não era diretamente ligado ao setor f inanceiro. Esse “medo” acabou se desfazendo e hoje Fernando Haddad é bem visto no mercado, o que garante pelo menos uma estabilidade na condução da economia do país.

No campo social, antigas políticas públicas que haviam sido deixadas de lado desde o impeachment de Dilma Roussef voltaram repaginadas. É o caso do Mais Médicos, agora com 28 mil inscritos, em sua grande maioria brasileiros. A recuperação do sistema da saúde pública é fundamental para 80% da população que dela depende. A renovação da frota do Samu, Brasil Sorridente, campanha nacional de vacinação, investimento na indústria da saúde para se ter maior autonomia em situações de crise são alguns dos exemplos na área que mais preocupa os brasileiros, segundo recente pesquisa Datafolha.

Na educação, a volta dos investimentos nas universidades federais é um aceno importante para um país que precisa superar um atraso tecnológico que deixa nosso parque industrial em condições precárias de competitividade internacional. Já nos ensinos básico e médio as coisas não andam bem. Estamos longe dos nossos adolescentes e jovens dominarem a matemática, disciplina essencial para o desenvolvimento científico de qualquer país.

No esporte, assunto tão caro aos brasileiros, uma sequência de desencontros políticos resultou em parcos avanços, enquanto na assistência social houve ampliação de programas que garantem o mínimo de dignidade a milhões de famílias, particularmente aquelas chefiadas por mulheres. O Bolsa Família teve ampliado o seu alcance e também as contrapartidas dos beneficiários que são obrigados a manter a criança na escola e a vacinação em dia.

Encerrando o ano, Lula pode apresentar uma estabilidade política porque soube, com sua reconhecida experiência de negociador, se entender com o Congresso Nacional de forma a avançar em pautas importantes, mesmo que tenha sido obrigado a usar algumas vezes o tradicional “toma lá dá cá” do Centrão. Emplacar Flávio Dino, o primeiro ministro comunista da história do STF, segundo ele mesmo disse, foi uma vitória pessoal, bem como a nomeação de Cristiano Zanin no STF.

Dessa forma, Lula3 entra em 2024 com a necessidade de consolidar a sua popularidade junto aos setores mais pobres da população, justamente seu eleitorado fiel, enquanto tenta manter pontes com a classe média que, em 2018, foi seduzida pelo discurso bolsonarista.

As eleições municipais de 2024 serão um momento de avaliação sobre a popularidade do presidente Lula. A extrema-direita, embora tenha perdido a eleição para a Presidência, mantem fortes redutos em vários estados e municípios, o que significa que haverá a reprodução da polarização política ocorrida nas urnas de 2022, com a guerra virtual das fakenews ganhando cada vez mais espaço na disputa.

O Brasil precisa dar passos concretos rumo a um novo processo de industrialização que reduza o abismo que nos separa das nações desenvolvidas, especialmente no campo da ciência e da tecnologia.

Nem mesmo a Inteligência Artificial, essa nova ferramenta tecnológica que apavora e seduz a todos, é capaz de cravar o que vai acontecer em 2024. Porém, uma coisa é certa: Lula3, apesar de alguns deslizes retóricos, ainda sinaliza esperança para boa parte dos seus eleitores. Para ser uma esperança profunda e duradoura, ele terá que deslocar o pêndulo em direção aos setores médios que constituem o principal bolsão bolsonarista.

Marco Pivaé jornalista e apresentador do programa Brasil Latino, na Rádio USP FM 93,7.

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