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O último dia na vida de um artista plástico – por Rafael Murió

Há títulos que carregam em si uma densidade quase insuportável, e “O último dia na vida” é certamente um deles. Não se trata apenas de uma frase, mas de um convite à reflexão sobre finitude, memória e estética. Desde os primórdios, a arte tem sido o espaço privilegiado para enfrentar o inevitável: a morte. Mas aqui, o enfoque não é o fim em si, e sim o instante que o antecede — o último dia, o último gesto, o último olhar.

O último dia é um palco onde cada gesto se torna símbolo, o cotidiano se transmuta em ritual e o banal ganha aura de eternidade. Artistas como Marina Abramović já exploraram a ideia de limite físico e emocional, transformando o corpo em território de resistência. Nesse sentido, o último dia é performance pura: uma coreografia entre o inevitável e o desejo de permanência.

Na pintura, o tema da morte sempre foi recorrente. Do barroco, com suas naturezas-mortas repletas de caveiras e ampulhetas, ao expressionismo, que traduz a angústia em traços violentos, o último dia aparece como metáfora da passagem. As vanitas barrocas lembram a fragilidade da existência, Goya expõe o horror da finitude coletiva e Munch eterniza o grito que ecoa no silêncio final. Cada pincelada é uma tentativa de congelar o instante, de eternizar aquilo que, por definição, escapa.

A fotografia, por sua natureza documental, aproxima-se ainda mais da ideia de último dia. Retratos de despedida, imagens de corpos em repouso, registros de guerras e catástrofes revelam a urgência de preservar aquilo que já não existe. Diane Arbus capturou as margens da vida, Sebastião Salgado revelou a dignidade no sofrimento e Nan Goldin expôs a intimidade da perda. O clique fotográfico é sempre um gesto de resistência contra o esquecimento.

O cinema, arte do tempo, talvez seja o meio mais adequado para narrar o último dia. Filmes como Melancholia, de Lars von Trier, ou O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, transformam a espera pelo fim em espetáculo visual e filosófico. No cinema, o último dia é suspense, é diálogo com o inevitável, é metáfora da condição humana. Pode durar duas horas ou um segundo, mas sempre carrega o peso da eternidade.

A música traduz o último dia em notas que ecoam além do tempo. Os requiems de Mozart e Verdi misturam celebração e luto, Billie Holiday canta despedidas em voz rouca e Caetano Veloso imprime melancolia tropical em suas canções. O último acorde é sempre um adeus, mas também uma promessa de permanência na memória coletiva.

Na arte contemporânea, o último dia surge em instalações e performances que convidam o público a experimentar a sensação de limite. Relógios que param, objetos que se desfazem, ambientes que simulam o fim: tudo se transforma em experiência estética, em vivência compartilhada da finitude.

O tema, inevitavelmente, dialoga com a filosofia. Nietzsche fala do eterno retorno, Heidegger da antecipação da morte, Camus da revolta diante do absurdo. A arte, nesse contexto, é a linguagem que traduz essas reflexões em imagens, sons e gestos, tornando o abstrato palpável e o incompreensível sensível.

O último dia na vida não é apenas um tema artístico, mas uma lente através da qual podemos compreender a própria condição humana. Ao encarar o fim, a arte nos oferece não apenas consolo, mas também beleza. Paradoxalmente, o último dia é o mais cheio de vida, porque nele cada gesto é definitivo, cada palavra é essencial, cada imagem é eterna.

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