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O mercado financeiro, o poder e a desigualdade – por Ricardo Cavalcanti

Falar de mercado financeiro é falar de dinheiro. E falar de dinheiro é, inevitavelmente, falar de poder. Poder de decidir, de influenciar, de crescer e até de sobreviver. O dinheiro sempre foi um instrumento central da vida humana, mas no mundo moderno ele se tornou muito mais do que isso: passou a ser o eixo sobre o qual gira a política, a economia e, muitas vezes, o destino das nações.

Não sou economista, não sou investidor e não domino a linguagem técnica das aplicações, dos fundos ou da bolsa de valores. Mas sou um observador do tempo em que vivo. E basta olhar ao redor para perceber que o mercado financeiro deixou de ser apenas um espaço de investimentos para se transformar em um centro de poder.

Houve uma época em que a lógica parecia mais simples. Comprar imóveis era sinal de segurança. Guardar dinheiro na poupança era sinônimo de prudência. A bolsa era vista como risco e especulação. Hoje, essa realidade mudou. A poupança perdeu força, os imóveis já não oferecem a mesma previsibilidade e a bolsa se tornou quase uma exigência para quem busca rentabilidade.

Mas rentabilidade para quem?

Adam Smith acreditava que o mercado seria regulado por uma “mão invisível”, capaz de organizar interesses individuais em benefício coletivo. No entanto, o que vemos atualmente é que essa mão invisível muitas vezes favorece os mais fortes e deixa os mais fracos expostos.

Karl Marx já alertava que o capital tende a se concentrar cada vez mais em menos mãos. A realidade parece confirmar essa visão: enquanto grandes investidores multiplicam fortunas, milhões de trabalhadores lutam apenas para manter o básico.

Os bancos, por sua vez, ocupam um papel central nesse jogo. Lucram em tempos de crescimento e também em tempos de crise. Cobram juros altos, oferecem crédito caro e, ao mesmo tempo, se apresentam como guardiões da segurança financeira. Mas segurança para quem? Para o pequeno correntista ou para o próprio sistema?

John Maynard Keynes defendia a presença do Estado como regulador necessário, justamente para evitar que o mercado se tornasse destrutivo. E talvez nunca essa ideia tenha sido tão necessária. Porque quando o Estado se omite, o mercado tende a servir mais ao lucro do que à justiça social.

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Por outro lado, Milton Friedman via na liberdade econômica a essência do progresso. Mas a liberdade econômica, quando não acompanhada de equilíbrio social, pode ampliar ainda mais o abismo entre ricos e pobres.

E é nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas econômica para se tornar profundamente política.

Quem define os juros? Quem controla a inflação? Quem lucra com a dívida pública? Quem paga a conta das crises? Quase sempre, a resposta aponta para o mesmo lado: o povo.

Warren Buffett certa vez disse que existe luta de classes, e que a classe dele está vencendo. Talvez essa sinceridade brutal explique mais sobre o mercado financeiro do que muitos tratados acadêmicos.

No fim, a grande pergunta continua sendo a mesma: onde está a segurança do dinheiro? Talvez ela não esteja em nenhum produto financeiro, mas em um sistema mais justo, em uma economia mais equilibrada e em um Estado capaz de proteger não apenas o capital, mas principalmente as pessoas.

Porque o mercado pode até mover o mundo. Mas sem justiça social, ele continuará movendo uns para o topo e deixando milhões para trás.

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