Não importa se foi exatamente Arraial do Cabo, se foi Armação dos Búzios, ou se foram apenas algumas horas que a memória esticou em dias. Importa o espírito do tempo.
Naquela costa ainda selvagem da Região dos Lagos — dunas, vento forte, sal grosso na pele —, a lenda diz que Bob Zaguri e Brigitte Bardot caminharam sem escolta, sem fotógrafos, sem contrato. Dois personagens da modernidade em estado bruto.
Ele, publicitário e homem de televisão, falava de imagens como quem fala de pessoas. Sabia que o mundo começava a ser governado pelo olhar. Ela, estrela absoluta, já intuía que a fama era uma jaula dourada — e que o anonimato, mesmo breve, podia ser um luxo revolucionário.
Arraial (ou Búzios) era o cenário perfeito: um Brasil fora do mapa, antes do marketing turístico, antes da celebridade virar algoritmo. Ali, a praia não pedia legenda. O mar era argumento suficiente.
Se passaram dias juntos? Talvez.
Se conversaram longamente? Muito provável.
Se a história cresceu com o tempo? Sem dúvida.
Mas não se trata de romance — trata-se de linguagem.
Zaguri entendia, como poucos, que a comunicação vive menos de fatos crus e mais de narrativas compartilháveis. Bardot, sem precisar dizer nada, era a própria narrativa: liberdade, desejo, ruptura, um novo feminino atravessando a cultura de massa.
Quando essa história começou a ser contada — em mesas de bar, redações, estúdios de TV — ela já não precisava ser precisa. Precisava ser verossímil. E era. Totalmente.
Porque, mesmo que não tenham passado dias inteiros juntos, eles pertenciam ao mesmo tempo histórico: o instante em que imagem, mito e comunicação se tornaram indissociáveis.
Arraial do Cabo entra na história como metáfora: o lugar onde a modernidade encostou o pé descalço na areia brasileira. E onde um publicitário entendeu, talvez antes de muitos, que o mundo seria cada vez mais contado por histórias — verdadeiras ou não, mas sempre sedutoras.
No fim, a pergunta correta não é “isso aconteceu?”
É outra: por que essa história continua viva?
E a resposta é simples, jornalística e humana: porque toda época precisa de suas lendas — e toda boa comunicação começa onde termina a ata notarial e começa o imaginário.












