Por décadas, o artesanato foi relegado a um lugar secundário no universo das artes visuais. Enquanto quadros a óleo e esculturas em mármore ocupavam as paredes dos museus e os salões das bienais, bordados, cerâmicas, rendas e entalhes em madeira eram vistos como “trabalho manual”, “produção popular” ou “expressão cultural periférica”. Mas essa distinção entre arte e artesanato — entre o erudito e o popular — está sendo cada vez mais questionada por artistas, curadores, acadêmicos e pelo próprio público.
A origem da separação
A divisão entre arte e artesanato tem raízes profundas na história ocidental. Desde o Renascimento, a arte passou a ser associada à genialidade individual, à inovação estética e à elevação espiritual. Já o artesanato ficou ligado à repetição de técnicas, à funcionalidade e à coletividade. Essa hierarquia foi reforçada pelos sistemas acadêmicos de ensino, pelas instituições culturais e pelo mercado de arte, que valorizavam obras assinadas por artistas consagrados e desvalorizavam criações anônimas ou comunitárias.
No Brasil, essa separação ganhou contornos ainda mais complexos. O artesanato foi associado às populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas e sertanejas — grupos historicamente marginalizados. Assim, o preconceito contra o artesanato não é apenas estético, mas também social e racial.
Apesar da desvalorização institucional, o artesanato carrega uma potência simbólica e estética inegável. Ele é expressão de saberes ancestrais, de técnicas transmitidas oralmente por gerações, de uma relação íntima com o território e com os materiais naturais. Um cesto trançado por uma mestra artesã do Xingu, por exemplo, não é apenas um objeto utilitário — é uma obra que carrega cosmologias, histórias e afetos.
“Há uma inteligência do fazer que é muitas vezes ignorada pela academia”, afirma a antropóloga Lúcia Helena Oliveira, pesquisadora da cultura material brasileira. “O artesanato não é menos arte porque é feito com as mãos. Pelo contrário: ele revela uma conexão profunda entre corpo, técnica e memória.”
Nos últimos anos, instituições culturais têm se esforçado para romper com essa hierarquia. Exposições como Histórias da Trama (MASP, 2021) e Amazônia: os artesãos da floresta (CCBB, 2023) trouxeram para o centro do debate obras de artistas populares, indígenas e artesãos que antes eram ignorados pelo circuito oficial.
Essas iniciativas não apenas ampliam o conceito de arte, como também desafiam o olhar do público. Ao ver uma rede tecida por mulheres do Vale do Jequitinhonha exposta ao lado de uma instalação contemporânea, o visitante é convidado a rever seus critérios de valor: o que é arte? Quem decide? Por que certas expressões são celebradas e outras silenciadas?
Há também criadores que transitam entre o artesanato e a arte contemporânea, borrando as fronteiras entre os dois campos. A artista mineira Rosana Paulino, por exemplo, utiliza técnicas de costura e bordado para tratar de temas como ancestralidade negra e violência de gênero. Suas obras, embora profundamente artesanais, são reconhecidas como arte de vanguarda.
Outro exemplo é o coletivo Mãos de Fada, formado por bordadeiras do subúrbio carioca, que cria painéis bordados com frases feministas e imagens da cultura popular. O grupo já participou de exposições em centros culturais e universidades, mostrando que o bordado pode ser tão político e provocador quanto uma pintura expressionista.
Apesar dos avanços, o mercado de arte ainda resiste em reconhecer o artesanato como arte. Obras artesanais são vendidas em feiras, lojas de decoração ou plataformas de e-commerce, muitas vezes por preços irrisórios. Já as galerias e leilões continuam privilegiando artistas com formação acadêmica e produção conceitual.
Essa disparidade revela um problema estrutural: o valor da arte ainda é medido por critérios elitistas, que ignoram o contexto social e cultural da produção. “O mercado precisa se abrir para outras formas de criação”, defende o curador Marcelo Campos. “Não podemos continuar reproduzindo uma lógica colonial que exclui saberes populares.”
O artesanato também tem se destacado como uma forma de arte sustentável e comunitária. Em tempos de crise ambiental e hiperconsumo, técnicas como o tear manual, a cerâmica natural e o tingimento vegetal oferecem alternativas éticas e ecológicas. Além disso, o artesanato fortalece redes locais, gera renda e preserva culturas ameaçadas.
Projetos como o Artesanato Solidário e o Ponto Firme mostram como o fazer artesanal pode ser transformador. No primeiro, mulheres do sertão nordestino produzem peças com identidade própria, valorizando sua cultura. No segundo, detentos aprendem crochê como forma de expressão e reinserção social.
Afinal, “artesanato é arte?” revela muito mais do que uma dúvida semântica — ela expõe os preconceitos que ainda estruturam o campo artístico. Ao reconhecer o valor estético, simbólico e político do artesanato, estamos não apenas ampliando o conceito de arte, mas também reparando injustiças históricas.
Desfazer os nós entre o popular e o erudito é um gesto de abertura, de escuta e de respeito. É entender que a arte não está apenas nas galerias, mas também nas mãos calejadas de quem borda, molda, trança e pinta com saberes que não cabem nos livros — mas que transformam o mundo.