Estou reunindo entrevistas, reportagens, críticas de espetáculos das décadas de 50, 60 e 70, quando cobria teatro para o jornal A Gazeta, de São Paulo e para o Correio da Manhã, no Rio. Quero juntar tudo num livro sobre essas três décadas. Vamos ver se consigo.
Tive sorte em trabalhar no setor durante essa época, quando ir ao teatro era bom demais! Ver Cacilda Becker, Paulo Autran, Maria Della Costa, Cleyde Yáconis, Glauce Rocha, Renato Borghi, Maria Isabel de Lizandra, Rubens de Falco, Othon Bastos, Sérgio Britto, Laerte Morrone, Ricardo Petraglia, Glória Menezes, Marília Pera, Fernanda Montenegro, Célia Helena, Walmor Chagas, Regina Duarte, Maria Helena Dias, Sadi Cabral, Ruth de Souza, Mauro Mendonça e Rosamaria Murtinho, Nicette Bruno e Paulo Goulart, Carlos Zara, Juca de Oliveira, Nydia Lícia e Sérgio Cardoso, Armando Bogus, Aracy Balabanian, Eva Wilma, Bibi Ferreira, Miriam Mehler, Claudio Correa e Castro, Etty Fraser, Berta Zemel, João José Pompeo. Jardel Filho, Francarlos Reis, Célia Biar, Ítalo Rossi, Cacilda Lanuza, Raul Cortez e tantos outros, era um privilégio. O pano se abria e nos ofereciam cenários de Gianni Ratto, Maria Bonomi, José de Anchieta, Cyro Del Nero, Naum Alves de Souza e Túlio Costa.

Sadi Cabral

Bibi Ferreira

Celia Helena e Raul Cortez
Ouvia-se textos traduzidos por Guilherme de Almeida, que traduziu tantas peças que chegou a pensar em escrever um livro chamado “Teatro Meu e dos Outros”. Tínhamos diretores como Ademar Guerra, Antunes Filho, Roberto Vignati, Celso Nunes, Afonso Gentil, Flávio Rangel, Zé Renato, ô glória! Víamos coreografias de Marika Gidali e de Marilena Ansaldi. Tínhamos uma produtora louquíssima como Ruth Escobar, que destruiu um teatro para montar “O Balcão”. Ouvíamos músicas deCláudio Petraglia: “Missa Leiga”, “A Moreninha” e “Revista do Henfil”, que Oswaldo Mendes botou no palco.
Espetáculos com vinte ou trinta atores! Tem mais isso, não!
Conhecemos Molière, Beaumarchais, Sartre, Brecht, Anouilh, Sófocles, Arthur Miller, Garcia Lorca, Steinbeck, Ugo Betti, Pirandello, Tennessee Williams, Shakespeare e seu contemporâneo Ben Jonson, Ibsen.

Maria Della Costa
E, um dia, o ótimo (e saudoso!) José Renato – criador do Teatro de Arena lançou Gianfrancesco Guarnieri e Vianinha para provar que a moderna dramaturgia brasileira estava nascendo e tivemos Jorge Andrade, Chico de Assis, Roberto Athayde, Leilah Assunção, Chico Pereira da Silva, Dias Gomes, Suassuna – meu Deus, que rei! – e recuamos, também, para Arthur Azevedo e Martins Pena. Bom demais!
Reconheço que nem tudo tinha esse grande, enorme calibre, mas o filé mignon era muito mais presente do que cozinhados menores. Tenho ficado fascinada – olhando por alto e com a perspectiva que só os anos nos dão – constatando que éramos felizes e não sabíamos. Ou sabíamos?
Foram três décadas de beleza e de muito amor ao teatro. De seriedade. De criatividade. De talentos explodindo!
Aí começou uma história ridícula de que o teatro estava morto, de que “o teatro da palavra cansa” – por incrível que pareça ouvi isso até de Ziembinski, do grande Ziembinski! Sim, até os grandes se equivocam. E as coisas foram indo por essas vertentes – abismos cujo fundo não se via! – cheguei a ouvir e até ler que o TBC teria feito um teatro superado e de que Cacilda Becker, também ela, estava ultrapassada, tanta besteira, asneiras, ridicularias de quem nem sabe direito o que é teatro… aí, ah! Cansei!

Cacilda Becker e Cleyde Yáconis
Fez-me muito bem depois de muitos e muitos lustros reler as matérias que escrevi, as entrevistas, as reportagens, as críticas. Repercuti, durante trinta anos, tudo que acontecia na cidade em matéria de teatro, reportava, entrevistava, fotografava. Escrevia críticas de forma muito direta e tenho me espantado, às vezes, com a demasiada sinceridade e com uma certa neurastenia com o que não me agradava. Se fosse hoje “pegaria” mais leve.
Do que acabei tendo certeza: foram três décadas de um teatro maravilhoso, feito por gente capaz e devotada, gente de grande talento que me fez muito bem, assim como deve ter feito bem ao numeroso público que seguia essas tribos. Essa, aliás, era a minha tribo. Estive em greves e passeatas com eles. Acompanhei as assembleias contra a censura até altas horas da madrugada. Ri, chorei e lutei com eles, com essa tribo maravilhosa cujos membros, às vezes, se flechavam uns aos outros. Muitos caciques e outros tantos índios dessa etnia cultural já se foram. Sobraram alguns. Ainda gosto (muito!) de vê-los no palco.

Eu com Eva Wilma e John Herbert
Comparações são inevitáveis e o prazer de ir ao teatro, hoje, já não é grande. Atores que não sabem articular direito. Que falam sem abrir a boca. Atrizes que nunca leram um livro. Uns e outros preferindo a facilidade das novelas e as fotos em revistas de celebridades. Às vezes, muita pose. Pouco estudo e quem foi, mesmo, esse tal de Ibsen?
Deixa pra lá. Em matéria de teatro sou saudosista à beça! E, para mim – repetindo um verso de Flávio Rangel – “Cacilda Becker nem morreu!”











