O marechal Henri Philippe Benoni Omer Joseph Pétain entrou para a história como o grande herói francês da Primeira Guerra Mundial. Em Verdun, ao norte da França, conseguiu, em dezembro de 1916, deter o avanço das tropas alemãs rumo a Paris, num feito que o transformou em mito nacional e símbolo da resistência do Exército francês.
Entretanto, a História, implacável com os ídolos, tratou de expor o outro lado desse mesmo personagem. Em 1940, no início da Segunda Guerra Mundial, apesar de a França dispor do maior e mais bem equipado exército da Europa, a blitzkrieg, a máquina de guerra alemã varreu as defesas francesas, revelando a incompetência estratégica de sua cúpula militar e colocando Paris sob ameaça iminente.
Diante do colapso, e alegando o temor de um maior derramamento de sangue francês, o general Pétain, ignorando os apelos de Winston Churchill, então primeiro-ministro britânico, assumiu o poder e, de forma humilhante, solicitou um armistício a Adolf Hitler. Assim, o antigo herói entregou à sanha nazista, sem resistência, o país que se orgulhava do lema liberdade, igualdade e fraternidade, inaugurando o vergonhoso regime colaboracionista sediado em Vichy, enquanto os nazistas alemães ocupavam Paris.
Mutatis mutandis, aos olhos atônitos dos patriotas lúcidos e de boa-fé, a História parece ensaiar sua repetição. Não mais uma rendição explícita a uma ideologia racialmente assassina, mas uma capitulação silenciosa e oportunista, motivada pela preservação de privilégios, pela tibieza moral ou pela adesão tácita a uma cleptocracia engendrada nos porões da injuridicidade e habilmente disfarçada de legalidade por seus operadores mais ardilosos.
Tal como no regime vassalo de Vichy, instala-se entre nós uma atmosfera de submissão dissimulada de prudência, de silêncio vendido como responsabilidade institucional. O resultado é o mesmo; insegurança, temor e incerteza quanto ao destino da Pátria e, sobretudo, indiferença quanto à situação do seu povo mais humilde, sempre o primeiro a pagar o preço da covardia das elites.
Na mesma época em que a França capitulava nos idos de 1940, Winston Churchill, diante da ameaça existencial que pairava sobre a Grã-Bretanha, foi instado por Hitler a aceitar um armistício ultrajante como o proposto à França. Sua resposta entrou para a eternidade:
“Iremos até o fim. Lutaremos nas praias. Lutaremos nos mares e oceanos. Lutaremos com confiança crescente e força incomum no ar. Defenderemos nossa ilha, qualquer que seja o custo. Jamais nos renderemos.”
A lição que emerge desses dois momentos históricos é cristalina; a coragem não é um atributo automaticamente conferido pelos cargos, títulos, patentes ou pelas armas. Quem abriga em seu espírito um Pétain jamais alcançará a altivez moral de um Churchill. Porque a verdadeira grandeza não se mede pela farda e tampouco pela toga que se veste, mas pela digna disposição de resistir quando a rendição parece mais confortável e a submissão mais segura.









