Há 60 anos, meu melhor amigo se chamava Roman. Consigo vê-lo agora. Tinha tudo de poeta. Nome, cara, cabelo, roupa, voz. Tudo. E era poeta. Escrevia à mão, só com maiúsculas. Um dia, ele pediu ajuda. Eu era um ano mais novo. Sua namorada ficou grávida. Não podiam casar aos 16 anos. Ou 17. Recém vinda da Polônia, Halina, além de ostentar esse nome lindo era uma beldade. Eles se amavam muito. E não temiam mostrar seu amor em público. Viviam aos beijos nos bares. Claro, não havia outra saída senão o aborto, também não seria problema encontrar um médico clandestino, a questão era: como pagar? Eu era rato de banca de jornal desde os onze anos, acho. Ia atrás de gibi do Pato Donald, de figurinhas da seleção, revistas e depois de um jornal que virou minha obsessão. Eu esperava chegar na banca, sábado à meia-noite. Queria pegar o primeiro exemplar da “Última Hora” dominical. “Vamos fazer um frila”, propus a Roman, “vai pagar o aborto”. Eu nunca tinha escrito em jornal algum. Mas já rondava a imprensa. Aos 12 anos saiu minha primeira entrevista, na revista “Diversões Juvenis”, da Editora Abril, com o palhaço Arrelia, o ídolo das crianças de São Paulo. Minha carta foi sorteada pela seção “o leitor entrevista seu ídolo”. Foi minha única experiência na imprensa até então. Claro que o Roman topou na hora. No dia seguinte lá estava eu na porta do jornal, num prédio humilde colado ao grandão da “Folha de S. Paulo”. O porteiro perguntou com quem eu queria falar. “Com o chefe”, respondi. Ele abriu a porta, apontou para o fundo da sala e, sem sequer perguntar meu nome ou pedir documentos, disse “é aquele ali, vai lá falar com ele”. O chefe estava lendo jornal. Sem saber quem eu era nem o assunto, ele mandou sentar e perguntou: “O que você quer?” “Quero escrever no seu jornal”. Ele se ajeitou na cadeira. “Você já escreveu em algum jornal?” “Não”, respondi, “mas sempre tiro nota dez em redação”. Ele acreditou em mim e encomendou uma reportagem sobre os problemas com os telefones. Deu algumas instruções. Mandou fazer plantão no prédio da Telefônica, na Sete de Abril, apinhado de clientes enfurecidos com o péssimo serviço. Esse chefe que acreditou num pirralho de 16 anos se chama Alberto Helena Jr. Famoso pela reportagem em que contou sua viagem de LSD na revista “O Cruzeiro”. Minha primeira reportagem saiu em página inteira. O Helena encomendou mais uma: “Uma indústria de lágrimas está no ar”. Sobre o sucesso crescente das novelas da TV Excelsior. A Globo da época. Passei uma semana nos estúdios da Vila Guilherme, circulei à vontade, sem crachá, de estúdio em estúdio, conversei com os galãs e as heroínas, Leila Diniz dentre elas, sem aspones, tudo era mais fácil. A “Última Hora” dominical fechou logo depois. Eu nunca contei ao Helena que, ao ajudar no nascimento de um jornalista ele também ajudou num aborto.