Dois contos de Machado de Assis são os meus preferidos: O Alienista e Missa do Galo. A Missa do Galo se inicia com este parágrafo: “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que iria acordá-lo à meia-noite”.
Interrompo a transcrição para despertar, entre leitores que não o leram, a curiosidade de conhecê-lo. Lido e relido numerosas vezes, o conto me traz à lembrança de Natais vividos em Capivari, onde na noite de Natal era obrigação de jovens e idosos, solteiros e casados, homens e mulheres, vestir a melhor roupa para comparecer à Igreja Matriz de São João Batista, onde à meia-noite seria celebrada a Missa do Galo.
A família residia na Rua Tiradentes, há poucas dezenas de metros da Matriz, localizada em terreno cuidadosamente ajardinado na praça Padre Haroldo. Desde o começo da noite as portas se abriam e o interior e o átrio eram festivamente iluminados. No interior, em uma das capelas, se encontrava armado presépio objeto da veneração, onde, em pequena vasilha, eram depositadas modestas esmolas. Encerrada a missa as pessoas se cumprimentavam e retornavam às casas, onde quase sempre as esperava a travessa de rabanada.
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”, indagou Machado de Assis no soneto Noite de Natal. Como o maior dos nossos escritores me faço a mesma pergunta. Após me formar advogado em 1960, abandonei o ofício de fotógrafo, para, em busca de trabalho mudar-me para São Paulo, onde as missas do galo, na Catedral da Sé, se tornaram a cada ano mais inacessíveis e menos concorridas.
Ao longo da vida perdi os pais, avós, tios, muitos primos e quase interminável relação de amigos e conhecidos. Guardo, porém, ternas lembranças da terra dos poetas Rodrigues de Abreu e Amadeu Amaral, da pintora Tarsila do Amaral (irmã do prefeito José Estanislau do Amaral), do jurista Moacyr do Amaral Santos, do filósofo Carlos Lopes de Mattos. De amigos diletos como Geraldo Amaral, Anésio Angelini, Ari Schincariol, Norberto Raimundo de Góes. Da juventude feliz só doces recordações me restaram.
Partilho com parentes e amigos a memória da Missa do Galo em Capivari. A todos faço votos de Santo Natal, pedindo ao Jesus Menino que os ilumine e acompanho na jornada que se iniciará em 1º de janeiro com as comemorações da passagem para o Novo Ano. Espero e desejo que 2026 nos seja melhor, poupando-nos Deus Nosso Senhor de tanta maldade, imoralidade, corrupção e violência.
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Advogado












