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Crônica – por Gaudêncio Torquato

Hoje deparei-me com duas fotografias que parecem traduzir o espírito do nosso tempo — como se o século inteiro coubesse em dois instantes: um que abraça, outro que foge.

A primeira imagem é a do beijo em Times Square, em agosto de 1945, dia de comemoração pelo fim da II Guerra Mundial. No meio da multidão, um marinheiro volta à sua terra e, tomado por um júbilo quase infantil, beija uma mulher de branco como quem beija a própria vida recuperada. Eu olho essa foto com um nó na garganta: 1945 foi o ano em que nasci — e naquele clique o mundo parece dizer, por um segundo, que ainda existe futuro.

A segunda imagem é o avesso do mesmo sonho. Vietnã. Crianças correndo pelas ruas sob bombardeio de napalm. E, entre elas, a criança correndo nua — nua não por escolha, mas porque o fogo arrancou até o último pedaço de proteção e dignidade. Aquela corrida não é apenas fuga: é a infância sendo expulsa do mundo. É o horror com pernas pequenas. É um retrato que não pede legenda; acusa.

Pois bem: essas duas fotografias servem para interpretar os tempos atuais. Infelizmente, as fotografias da dor predominam sobre as fotografias da paz. Por quê?

Porque o mundo atravessa uma era de conflitos e guerras. Da Guerra Rússia–Ucrânia ao conflito Israel–Gaza, a violência voltou a se impor como linguagem e método, com mortes que, nos grandes conflitos, ultrapassam facilmente a casa de dezenas de milhares. A guerra reapareceu como rotina; e o horror, como repetição.

Vivemos uma era que Samuel P. Huntington descreveu, em sínteses duras, como a era da “lei do revólver”, um paradigma do caos: Estados fracassados, territórios sem governo efetivo, cartéis de drogas, milícias, extremismos, a lei da bala disputando espaço com o direito. Onde a política falha, o medo administra. Onde a razão se cala, o fanatismo grita. Onde o Estado se esfarela, a violência assume a autoridade.

Nossos tempos já não respiram o suave perfume da paz; respiram, muitas vezes, o odor pesado — quase fétido — das guerras. Tempos de horror e caos.

E é aí que as duas fotos voltam a falar, como se estivessem vivas.

A foto do beijo não é apenas um beijo: é um símbolo de trégua, de recomeço, de humanidade voltando a ocupar a praça pública. É o “basta” que salva. É o instante em que o mundo, exausto, decide celebrar a vida.

A foto da criança fugindo não é apenas uma criança: é a prova de que a guerra sempre começa nos gabinetes e termina no corpo dos inocentes. É o “nunca mais” que falha. É a civilização se envergonhando de si mesma.

Essas duas imagens nos fazem uma pergunta simples, incômoda e urgente: qual fotografia estamos fabricando para as próximas décadas? A do abraço ou a da fuga? A da paz ou a do pavor?

A paz não nasce por geração espontânea. Ela não é uma pausa; é uma construção. Exige disciplina moral e política: diplomacia paciente, justiça que não humilha, desenvolvimento que não exclui, educação que desarma o ódio, instituições que contêm os aventureiros, líderes que entendem que “vencer” não é esmagar, mas pacificar.

E exige, sobretudo, uma convicção antiga que o mundo insiste em esquecer: a união dos povos não é poesia — é sobrevivência.

Que o nosso tempo volte a merecer fotografias como a do beijo: imagens em que a vida não foge, mas se encontra. E que nenhuma criança, em lugar algum, precise correr do fogo — nua, aterrorizada, indefesa — para ensinar aos adultos a lição que eles se recusaram a aprender.

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