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Retratos, sinos e homens da terra – por Gaudêncio Torquato

Outros personagens marcavam a paisagem de Luís Gomes. Quando se falava em fotografia, por exemplo, falava-se em Tintim e João Fotógrafo. Suas obras se espalhavam pelas paredes das casas, preservando batizados, casamentos, festas, famílias reunidas e semblantes de pessoas que o tempo levaria.

Tintim era também o prestativo braço direito do vigário. Fotografou o cotidiano de Luís Gomes durante décadas e cuidou das coisas da igreja com uma dedicação que o tornou insubstituível.

A ele devo as primeiras moedinhas que entraram em meu bolso como fruto do trabalho.

Quando alguém morria, a família encomendava ao sacristão um toque de sinos. Era o anúncio público da morte. Quem podia mais pagava duas horas; os menos abastados conformavam-se com quinze minutos ou meia hora.

Ficávamos nós, um pequeno grupo de meninos, à espera dos mortos. Que Deus me perdoe, mas torcíamos para que as famílias encomendassem toques mais longos.

Ainda guardo a imagem dos mortos vindos dos sítios e vilas de Luís Gomes. Eram trazidos, geralmente, dentro de uma grande rede branca dependurada em estacas apoiadas nos ombros de velhos amigos. Lá vinha o morto, ao ritmo dos passos compassados dos carregadores, diretamente para a igreja ou para a casa de algum conhecido. Ali o corpo era colocado num caixão tosco. O velório era apressado e o enterro, ligeiro.

Tintim não tinha paciência para badalar os sinos por muito tempo. Convocava-nos para a tarefa e pagava uma comissão. Meia hora era o máximo que suportávamos. Dois meninos dividiam o serviço: cada um puxava o badalo durante quinze minutos.

Outros nomes atravessam o campanário da memória. “Seu” Ancelmo, por exemplo, carregava a designação de crente, condição que, naquela época, afastava dele muitas famílias católicas. Dizia-se que os crentes iriam para o inferno. Hoje, os evangélicos dão o tom em muitas comunidades — e até na política.

Ancelmo era pai de Sidraque, meu colega no grupo escolar, e possuía um engenho de cana-de-açúcar no Sítio Oliveira, perto das terras de “seu” Gaudêncio.

Lembro-me também de “seu” Tenga, pai de João Batista, meu colega de seminário; de dona Maria Vicensa, mãe de Augusto, outro seminarista; e de Joaquim Martins, dono da farmácia e pai do médico Manoel Martins, igualmente meu colega de seminário.

De Joaquim Martins guardo uma recordação marcada no próprio corpo. Enquanto brincava de arar a terra com meu irmão Babu, recebi dele uma enxadada que cortou a ponta de um dedo da mão esquerda. Corri para a farmácia segurando a parte atingida, com a unha partida e o sangue jorrando pela rua.

Joaquim fez o curativo, juntando as partes. Durante muito tempo, convivi com aquele chumaço envolvendo o dedo. Depois, vi que as partes haviam colado. Um alívio. A cicatriz ficou e ainda provoca a inevitável pergunta nos salões de manicure:

O que foi isso?

Lembro-me de Manoel Paulino, oficial de justiça e pai de Expedito, figura que tanto auxiliou nossa família; e dos Saturnino, representados por Chica, todos muito ligados a nós.

A memória alcança também a família Ernesto — João e Manoel —, moradores de confiança que administravam as terras da Lagoa de Cima. O sistema de trabalho era o de “meia” ou de “um quarto”: metade ou um quarto da produção ficava com o proprietário, e o restante, com os usuários da terra. Conforme a safra fosse boa, média ou ruim, meu pai procurava atender aos pleitos dos moradores.

Havia ainda Sebasto, uma espécie de fazedor de tudo; o “veio” Dé; seu filho Neném; Zé Chagas; e, mais tarde, Zé Germano, vaqueiros da fazenda Salgadinho.

Na cidade, a atividade de vaqueiro era exercida por Manfredo, que mantinha o eterno chapéu de couro enfiado na cabeça.

O cheiro do gibão dos homens que lidavam com o gado ainda faz visitas periódicas às minhas narinas. Vem puxado pelas lembranças de outrora, misturado ao cheiro da terra, ao som dos sinos e às imagens amareladas nas paredes das casas.

A memória é também uma espécie de fotógrafo. Registra o instante, guarda os rostos e, muitos anos depois, revela aquilo que imaginávamos

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