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A arte de proteger os seus mais caros presentes – por Cristiane Sanchez

Em vez dos votos tradicionais de final de ano, convido você a uma leitura que não é apenas sobre a “noite feliz”, mas sobre o espírito com que devemos conduzir a vida hoje, amanhã e todos os dias. Muitas vezes, o Natal é focado no que os olhos alcançam: as luzes piscantes, as ceias fartas e as músicas temáticas. No entanto, o espírito que verdadeiramente sustenta a nossa existência mora naquilo que é invisível a olho nu. Em vez de desejar apenas mesas cheias ou presentes caros, proponho um olhar para o que realmente importa: o cuidado com os nossos presentes mais valiosos, as pessoas ao nosso redor

Talvez você já tenha notado, em pacotes que percorrem longas distâncias, o ícone de duas mãos protegendo uma pequena caixa sob o aviso Fragile. O recado é claro: Handle with care — manuseie com cuidado. Seria revelador se todos nós carregássemos esse mesmo rótulo colado à pele, lembrando ao mundo que a fragilidade é a nossa condição mais básica. Ocorre que, enquanto poupamos as crianças por sua pureza e os idosos por sua finitude, tratamos a multidão de adultos ao nosso redor com a força bruta de um trator, ignorando que a resistência tem limites.

Partimos do pressuposto perigoso de que quem “cresceu” já não se quebra e sabe se defender sozinho. É verdade que os tombos da vida nos ensinam a criar resiliência, mas isso não nos torna inquebráveis. Existem fibras internas que, uma vez rompidas, não se regeneram; sentimentos que se espatifam de tal forma que nenhum esforço de colagem consegue restaurar a forma original. Por isso, o alerta precisa ser levado a sério: manuseie cada encontro com cuidado, pois todo ser humano carrega em si a delicadeza de um cristal.

Gentileza superficial vs. Arquitetura afetiva

Há uma diferença fundamental entre ser apenas “gentil” e ser verdadeiramente alguém que “trata com cuidado “. Campanhas que pregam a cortesia são importantes, mas muitas vezes induzem apenas a gestos superficiais, como o “Boas Festas” automático no elevador. Isso é tratar bem, mas não é, necessariamente, tratar com cuidado.

Tratar com cuidado significa praticar a arquitetura afetiva: é colocar-se no lugar do outro e dimensionar o quanto uma estupidez pode machucar. Significa levar em consideração as dificuldades alheias para não exigir demais de seus sentimentos e entender que a comunicação é a base para a paz. Acima de tudo, é honrar o laço construído e não permitir que a intimidade seja uma licença para a agressão.

O inventário do invisível

Cada pessoa que cruzamos é um acervo único de peças raríssimas e, muitas vezes, rachadas. Dentro de cada um, existe um “estoque” imenso de vivências que não aparecem no primeiro contato. Tratar com cuidado é respeitar esse inventário do invisível:

  • Sonhos sagrados: Projetos que podem parecer bobagens para os outros, mas que são o alicerce de quem os carrega.
  • Cicatrizes e traumas: Feridas que custaram a fechar e que um simples “cutucão” pode reabrir.
  • O medo da insuficiência: O receio de não ser o bastante, muitas vezes disfarçado sob uma produtividade excessiva.
  • A dor da ausência: A saudade de quem não se sentará à mesa este ano, transformando o peito em um cômodo vazio.

Seja abrigo, não tempestade

A maturidade nos ensina a montar armaduras, mas esquecemos que elas também pesam e que, por baixo do metal, a pele continua sensível ao toque. Agimos como se todos fossem feitos de pedra, acreditando que nossas atitudes ríspidas não deixam rastros.

Mas ninguém é imune. Uma palavra ríspida pode não quebrar um osso, mas amassa o espírito e deixa um hematoma na alma que dói cada vez que alguém encosta. Neste Natal, meu voto é que você olhe para as pessoas como uma biblioteca de livros de capa única: não risque as páginas alheias. Afinal, a maior decoração que alguém pode ostentar não está na fachada da casa, mas na forma como ela abriga o coração de quem entra.

Seja abrigo, não tempestade. O outro é o seu território mais sagrado.

Trate bem dos seus mais caros presentes: as pessoas que estão perto de você. Trégua, risos e tim-tim!

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