Estou pensando na dor. E, pensando na dor, a dor está doendo em mim. A dor de Orelha, o cão que foi embora doído. O cão que simboliza tantos outros que, doídos, partiram. Porque vítimas também de inumanidades.
Olho nos olhos de Orelha e vejo os olhos de bondade que vejo em tantos cães. Tenho os meus, em casa. Que olham as minhas chegadas e as minhas partidas. Que pedem amor. Que dão amor, mesmo quando não pedimos.
Aqui perto de onde moro, tem a Lua, que mora com o Leo, que mora na rua. O Leo me disse que foi abandonado por todo mundo, menos pela Lua. Tem o Bola que também mora na rua e dorme abraçado com o Zé.
O Leo, o Zé e tantos outros são frutos de um plantio incorreto de uma sociedade que ainda desconhece os melhores caminhos para cuidar dos que foram descuidados pela vida. E há deles em todos os cantos. E, em todos os cantos, há o Orelha, a Lua e o Bola. Alguns nem têm nome. Todos têm um sentir.
Adolescentes, talvez entediados, talvez com ausências de conhecimentos sobre o sentir, não sentiram a dor que causaram em Orelha. Riram, talvez, o riso dos vazios. Comemoraram a façanha dos que podem fazer qualquer coisa. Dos que tratam como coisa quem coisa não é. E Orelha doeu e eles, aparentemente, não doeram.
A dor que não dói preocupa. O que causa a insensibilidade humana? O que veio antes da dor que causaram?
Somos seres que afinamos e desafinamos na vida. Que acertamos e que erramos. Mas o erro da insensibilidade cobra um preço maior. Os excessos de coisas nos deseducam. E, geralmente, eles vêm com as ausências de valores.
Imaginemos que os fatos sejam verdadeiros. Que alguns pais tentaram coagir testemunhas. Que se mobilizaram para que nada acontecesse aos filhos. Se fizeram depois o que fizeram antes?
Ninguém nasce querendo jogar olhos de amor no mar nem querendo causar dor nos olhos que apenas olham, no corpo que apenas passeia por entre as pessoas balançando alegria. Desacredito de opiniões que atribuem alguma perversidade inata. Somos o que somos porque aprendemos a ser.
A compaixão, o sentir a dor do outro, do outro um humano, do outro um animal, do outro um ser da natureza, é um dos mais bonitos sentimentos . É uma conexão com a vida. É uma autorização para a alegria.
Não há alegria sem sentimentos. Quando o mundo interior é vazio, esvaziamos de significado a nossa existência no mundo. Não quero dizer que a culpa é dos pais. Não sei dizer se foram, como tantos, entortados pelas redes sociais. Não seria leviano de julgar quem nem conheço.
Conheço, modestamente, de humanidade. Conheço os atributos do silêncio e do pensamento. E a beleza da educação. Da educação que dá conta de pensar sobre o visível e o invisível. Sobre o que morre e sobre o que permanece.
Somos, diferentemente dos animais, conhecedores da vida e da morte. Orelha não tinha como conhecer que aqueles adolescentes queriam a sua morte. Por isso deve ter olhado com a ternura própria dos olhos de um cão e imaginado que estavam brincando com ele, como tantos outros já fizeram. Orelha teria oferecido o lamber, o correr junto, o buscar algo jogado, o deitar para o esperar.
É preciso educar para que a dor do outro doa em mim. O outro é parte da vida da qual também sou parte. O outro é parte de mim. Ou compreendo isso ou desumanizo o mundo.
Lembro da resposta do papa Francisco a uma criança que perguntou sobre um céu para os cachorros. O menino inconsolável com a morte do cão queria saber. E o papa respondeu “o paraíso está aberto a todas as criaturas de Deus”.
O papa deu uma resposta humana ao humano sentimento daquele menino que havia se despedido do seu cão. Até porque o que sabemos nós sobre o que vem depois?
Sabemos o que vem antes. O que podemos fazer antes sabendo que vem um depois.
Depois de ensinarmos sobre a dor que dói para não termos a dor que não dói, teremos um mundo em que os sentimentos sejam tão bonitos quantos os olhos inocentes de vidas feitas para amar.












