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A primeira reportagem “ninguém esquece” – por Gaudêncio Torquato

Comecei a trabalhar na sucursal do Jornal do Brasil em Recife de maneira inesperada, no 3º ano do científico (hoje equivalente ao Ensino Médio). Por volta de 9h da manhã de uma sexta-feira, fui pedir um estágio na redação deste que era, na época, reconhecidamente o melhor jornal do país. Ficava em um edifício da famosa Rua da União, objeto da poesia do poeta Manuel Bandeira (1886-1968), um dos maiores nomes que o Nordeste legou à literatura brasileira:

(…) brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas (…)

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa.

E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim

que se chamava midubim e não era torrado era cozido.

Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca

Foi há muito tempo (…).

Fui à sucursal do jornal vestindo uma roupa simples, camisa curta – não estava preparado para uma tarefa jornalística naquele momento. Entrei encabulado no escritório da sucursal. Desajeitado. O chefe da redação, Paulo Rehder, jornalista experiente do Rio de Janeiro, foi logo respondendo ao meu pleito:

– Jovem, já que você quer fazer jornal, pega essas laudas e vai até a Sudene entrevistar os governadores do Nordeste sobre reforma agrária.

Imaginem isso em 1964, na época da ditadura, os anos de chumbo começando ali, mostrando a cara, e eu sem saber sequer onde era a Sudene. “Você descobre onde é, lá na Praça Dantas Barreto.” Subi para a reunião da Sudene, que já havia começado; era um dos encontros mensais que os governadores do Nordeste, mais os conselheiros representantes dos ministérios, costumavam fazer na época.

Cheguei e ouvi a pergunta:

– Você é o quê?

– Sou jornalista do Jornal do Brasil.

– Vai para aquele cercadinho, os jornalistas estão lá.

Fiquei no meio dos jornalistas, ninguém me conhecia, olhavam para mim de maneira estranha. “Que bicho é esse que veio aqui? Chegando aqui agora, de maneira informal, e já vem botando banca?”.

Eu tinha de cumprir a tarefa exigida. Como é que eu vou entrevistar? Os governadores estavam todos sentados em volta de uma mesa circular. Eu não tive dúvida, comecei a fazer a entrevista, comecei a perguntar, me ajoelhando ao lado de cada governador:

– Governador, eu sou do Jornal do Brasil, por favor, eu tenho uma pergunta para fazer ao senhor. O senhor é a favor ou é contra a reforma agrária?

E assim eu fui correndo toda a mesa.

No final da reunião, ainda faltavam dois governadores, inclusive um do meu estado, Aluízio Alves; o outro era o de Pernambuco, Paulo Guerra. Peguei os dois no corredor, enfim, entrevistei todos os governadores do Nordeste.

Governavam os estados: Newton Bello (MA); Petrônio Portela (PI); Virgílio Távora (CE); Aluízio Alves (RN); Pedro Gondim (PB); Paulo Guerra (PE); Luiz Cavalcante (AL); e Celso Carvalho (SE), que substituiu o governador cassado, Seixas Dória. A Ilha de Fernando de Noronha era governada por Jaime Augusto da Costa e Silva, um quadro da Marinha.

Todos eles se posicionaram a favor da reforma agrária. Voltei para a sucursal. “Faça um telegrama”; depois de quatro ou cinco tentativas, que foram para a cesta de lixo, consegui seguir as normas rígidas do JB – com lead, sublead (primeiro e segundo parágrafos resumindo a matéria com os fatos centrais), corpo e final. Corri para a Italcable (antiga empresa italiana que operava os serviços dos telégrafos), na Av. Dantas Barreto, quase de frente ao prédio da Sudene. Época sem internet, sem celular ou telefone público.

Passei o telegrama. No dia seguinte, sábado, peguei o ônibus elétrico, e me despachei para a Av. Guararapes, no centro da cidade, onde estava a banca de José do Patrocínio, jornalista da velha guarda e jornaleiro. Nada no jornal, fiquei meio frustrado. No domingo pela manhã, saí novamente do Derby para a cidade, fui à banca do Zé e, para minha surpresa, li: “Governadores do NE apoiam Reforma Agrária”. Manchete espichada em 8 colunas na primeira página. Um trunfo.

Reconhecimento geral: minha primeira matéria no jornalismo foi a mais importante do domingo no jornal mais bem feito do País, o mais importante da época. Bonito, bem diagramado, cuja redação era comandada por Alberto Dines. Dines mandava sempre recomendações sobre textos, técnicas de redação. Foi considerado um dos mais completos chefes de redação de um jornal brasileiro. Fui aceito como estagiário no JB. Entrando no jornalismo com o pé direito ou, para outros, com uma estrela na testa.

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