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A velocidade na arte: entre impulso e reflexão – por Rafael Murió

Na história da arte, sempre se discutiu o papel do tempo na criação. Há obras que parecem exigir longos períodos de maturação, como esculturas clássicas ou pinturas renascentistas, e há aquelas que nascem em gestos rápidos, quase instantâneos. Surge então a questão: quando um artista plástico trabalha velozmente, seria possível reduzir a zero a margem de reflexão entre ele e a tela?

A resposta, ao que tudo indica, é não. A reflexão nunca desaparece por completo. O que muda é sua forma. Em vez de se manifestar como raciocínio lento e calculado, ela se condensa em intuição, memória e gesto corporal. O artista veloz não deixa de pensar; ele pensa em movimento, pensa com o corpo, pensa com a energia acumulada de sua experiência.

Um exemplo emblemático é Jackson Pollock. Suas telas de dripping, criadas com movimentos rápidos e aparentemente caóticos, não eram fruto de improviso descontrolado. Cada respingo de tinta carregava anos de prática, consciência espacial e domínio da técnica. A velocidade não anulava a reflexão, mas a transformava em ação imediata. O espectador, ao contemplar suas obras, sente essa urgência vital, como se estivesse diante de uma coreografia congelada no tempo.

Outro caso é Jean-Michel Basquiat. Suas pinturas, muitas vezes feitas em ritmo frenético, revelam uma mente que trabalhava em alta rotação. Palavras, símbolos e figuras surgiam em camadas rápidas, mas carregadas de sentido. Basquiat não “pensava menos” por pintar rápido; ele pensava diferente, traduzindo sua visão de mundo em gestos velozes que condensavam crítica social, poesia e emoção.

Essa lógica não se restringe às artes visuais. Na música, por exemplo, o jazz improvisado mostra como a velocidade pode ser aliada da reflexão. Um saxofonista que improvisa não está “sem pensar”; ele está pensando em tempo real, apoiado em memória musical, técnica e sensibilidade. O mesmo ocorre na dança contemporânea, quando o corpo responde instantaneamente ao espaço, mas carrega consigo anos de treino e consciência corporal.

Portanto, a margem de reflexão entre artista e tela nunca chega a zero. O que acontece é uma mudança de registro: a reflexão se torna intuição, o cálculo se torna gesto, e o pensamento se torna movimento. A tela, nesse processo, não é apenas suporte, mas cúmplice. Ela recebe não só tinta, mas energia vital, condensada em segundos.

Para o público, essa arte veloz transmite intensidade. Há uma sensação de urgência, de presença absoluta no instante da criação. É como se o espectador fosse convidado a participar do momento em que o artista e a tela se encontram sem barreiras, em um diálogo imediato.

A beleza da velocidade na arte está justamente aí: não na ausência de reflexão, mas na sua transformação. O artista veloz não elimina o pensamento; ele o acelera, o incorpora no gesto, o traduz em ação. E é nesse espaço condensado, entre impulso e consciência, que nasce uma arte pulsante, viva, capaz de tocar quem a contempla.

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