O Brasil nunca foi um país fácil para se viver e se compreender.
Desde seu descobrimento cometeu muitos “pecados” e muitas “redenções”. Os descobridores vieram aqui para delapidar nossas riquezas naturais: madeira, minérios, pedras preciosas, biodiversidade e outras tantas. E assim o fizeram.
Para isso submeteram e quase exterminaram os povos originários de nossa terra. Quando chegaram a população do lugar era de 5 milhões de pessoas, hoje são cerca de 1,5 milhão.
Depois de um tempo foram à África buscar a mão de obra escrava. A escravidão durou 300 anos e fomos o último país do mundo a aboli-la.
A terra nativa foi dividida em capitanias e doada a exploradores vindos da matriz, que extraíram tudo que podiam, a chicotadas e assassinatos.
Chegamos à independência 300 anos depois. Veio o Império, mudou o poder, mas permaneceu o modus operandi de dependência e submissão.
Menos de 100 anos depois chegou a república como um golpe de Estado, uma quartelada chefiada pelo Marechal Deodoro.
Nessa altura já nos instalamos como um país agrícola, de grandes latifúndios, enorme desigualdade social e as marcas visíveis da escravidão e do desenvolvimento predatório.
Podemos afirmar sem errar, que essas marcas persistem até hoje.
O exercício do poder se deu, desde o início, sob a forma de forte dominação das elites, em meio a muitos levantes populares, desmandos, abusos, e uma rede de corrupção que passou de geração a geração.
É claro que a força da vida promoveu uma miscigenação sem igual, entre os brancos europeus, os negros africanos, os indígenas da terra e os asiáticos que por aqui chegaram.
Assim surgiu o brasileiro de hoje, que não tem iguais pelo mundo afora.
Isso, segundo Gylberto Freire, nos deu uma força especial, uma forma peculiar de viver, de resistir, de suportar, de criar, de reinventar.
O povo brasileiro é sobretudo um forte, criativo, sagaz, trabalhador e sobrevivente de todo esse processo torto de construção de um país.
Porém, nossas elites, nativas e estrangeiras, foram e são implacáveis na fome de impor seu modo de comandar.
A desigualdade social atingiu níveis insuportáveis. O acumulo de riquezas, e estamos entre a 8ª e a 10ª economia do mundo, se concentra cada vez mais na mão de poucos. A distribuição de renda é feita por meio de bolsas esmolas, que como disse Luís Gonzaga, “vicia o cidadão”. Hoje já são 90 milhões de brasileiros que dependem delas.
A exploração de nossas riquezas naturais ainda segue a lógica dos descobridores. O Brasil caminha no seu desenvolvimento depredando suas terras e matas, suas águas, rios, lagos e mares, e sua atmosfera também.
Apesar de legislações mil, o modelo de destruição continua no campo e nas cidades.
Há algum tempo o Brasil busca um ritmo mais sustentável de desenvolvimento. Mas ainda não conseguiu impô-lo.
Desde a Proclamação de República nossa democracia evolui por espasmos, entre períodos de liberdade e regimes autoritários, ou governos populistas de “direita” e “esquerda”.
Tivemos os primeiros governos republicanos, logo em seguida à Ditadura de Vargas de tendência nazifascista. Depois um período de democracia liberal, interrompida pelo Golpe Militar de 1964 que durou 21 anos.
A redemocratização veio em 1985, e nosso país tem alternado diversos governos populistas ditos de “direita” e “esquerda”.
O populismo faz mal à nação porque vive de demagogia, de fisiologismo, de mentiras e factoides.
Por fim e não menos importante temos o quesito moralidade.
O Brasil é conhecido como um pais corrupto desde o seu descobrimento. Não é à toa que se fala do tal “jeitinho do brasileiro”.
Muitos de nossos dirigentes, governantes, lideranças e gente do povo sempre viveram aplicando golpes, burlando as leis, furando as filas, se apropriando de dinheiro alheio. Isso é de domínio público.
Após a redemocratização tivemos 2 presidentes impedidos (Collor e Dilma) e quatro presidentes presos (Lula, Temer, Collor e Bolsonaro). Um recorde de bandalheiras.
Mas, nos últimos 25 anos a corrupção tomou proporção de pandemia transformando o Brasil numa sequência de esquemas e escândalos avassaladores que nos jogou no 107º lugar no ranking da moralidade pública.
Está feio demais de se ver!
No último quarto de século tivemos o Mensalão, o Petrolão, o Rachadão, o Emendão, o Descontão, o Masterzão, o Toffolão, e sabe Deus o que mais vem por aí.
A corrupção transpassou 4 presidentes e seis governos, todos eles no “olho do furacão”. Ela abrange gente de todos os matizes ideológicas e partidárias, e tomou de assalto os poderes executivo, legislativo, judiciário e líderes empresariais, religiosos, esportivos, comunitários e tantos outros.
Ficou insuportável!
E agora?
O Carnaval passou, e a vida volta à realidade.
A doença tomou conta da nação e seus órgãos foram apodrecendo diante da roubalheira. O remédio para isso será amargo e a solução é drástica e dolorosa.
Mas terá que acontecer dentro dos limites da Democracia.
Reunir os brasileiros do bem, que são muitos, e agir.
A ética e a moralidade precisam imperar!
Tarefa de gigante!
Gilberto Natalini
Médico e Ambientalista











