A maioria das pessoas que conheço toma pelo menos um remédio por dia. Muitas tomam três. Algumas, sete ou mais. Se tomamos um medicamento para dormir, um para acordar, outro para digerir e mais um para lidar com o efeito colateral do primeiro… será que estamos mesmo tratando o corpo? E a pergunta que poucas pessoas se fazem é: será que todos esses medicamentos ainda são necessários? Essa dúvida simples está no centro de um movimento global chamado desprescrição, que pouca gente conhece, mas deveria.
A desprescrição não é uma negação da medicina, nem uma cruzada contra os avanços farmacológicos. Ela é, na verdade, parte de uma boa prática médica. Significa reavaliar, com cuidado e critério, os medicamentos que uma pessoa toma, para saber se todos ainda fazem sentido, se continuam seguros ou se estão, na verdade, fazendo mais mal do que bem.
Quando mais não é melhor
A polifarmácia, termo usado para descrever o uso de múltiplos medicamentos simultaneamente, é um dos maiores desafios da medicina contemporânea, especialmente entre os idosos. Em muitos países, inclusive no Brasil, quase metade dos idosos toma cinco ou mais medicamentos ao mesmo tempo. E o mais preocupante: muitos desses remédios foram prescritos para lidar com os efeitos colaterais de outros. É o que se chama de cascata de prescrição.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), esse cenário representa um risco real à segurança do paciente. Um relatório publicado como parte do “Desafio Global de Segurança do Paciente: Medicamentos sem Danos”, da OMS, aponta que a polifarmácia está associada a aumentos significativos nas hospitalizações, quedas, declínio cognitivo e mortalidade.
E, mesmo assim, o caminho mais comum ainda é prescrever, ajustar, adicionar. Poucos profissionais são treinados para o outro lado do processo: tirar um remédio com segurança. E poucos pacientes sabem que isso é possível, e desejável, em muitos casos.
O que é desprescrição, afinal?
O termo foi cunhado apenas em 2003, mas vem ganhando força nos últimos anos. Desprescrever é reduzir, substituir ou interromper medicamentos que já não trazem benefício ou que podem estar causando prejuízos à saúde. Isso deve ser feito com critério, supervisão médica e, sempre, com avaliação individualizada.
Parece óbvio, mas não é. A prática médica ainda se baseia fortemente em diretrizes que dizem quando começar um remédio, mas raramente dizem quando parar. O resultado? Remédios que deveriam ser temporários acabam sendo tomados por décadas.
Um estudo publicado no British Journal of General Practice mostrou que mais de 20% dos pacientes idosos estavam usando medicamentos considerados potencialmente inapropriados. Isso inclui desde ansiolíticos e antidepressivos até inibidores de bomba de prótons (para gastrite) e anti-hipertensivos.
Os remédios que podem sair de cena
Algumas classes de medicamentos têm sido mais estudadas no contexto da desprescrição:
- Inibidores de bomba de prótons (como omeprazol): seu uso prolongado está associado a déficits de absorção de nutrientes, risco de fraturas e alterações intestinais.
- Benzodiazepínicos (ansiolíticos e indutores do sono): aumentam risco de quedas, demência e dependência.
- Antidepressivos tricíclicos e psicotrópicos em geral: seu uso deve ser avaliado com cautela, especialmente em idosos.
- Medicamentos para diabetes (anti-hiperglicêmicos): a redução cuidadosa pode ser indicada quando há risco de hipoglicemia ou complicações cardiovasculares.
- Anti-hipertensivos: estudos recentes indicam que, em pacientes com demência, sua desprescrição pode estar associada a menor declínio cognitivo.
É claro que isso não significa parar tudo de uma vez. Pelo contrário. A retirada precisa ser planejada, gradual e monitorada. E, mais do que isso, o corpo precisa de apoio para voltar a funcionar de forma mais natural.
É aqui que a acupuntura, como prática integrativa, pode oferecer um caminho complementar extremamente útil.
A acupuntura atua sobre sistemas reguladores do corpo, estimulando a produção de neurotransmissores, reduzindo inflamações silenciosas e promovendo o equilíbrio entre os eixos neuroendócrino e imune. Estudos mostram que a acupuntura pode ajudar a reduzir sintomas comuns que, muitas vezes, motivam a prescrição de medicamentos como: ansiedade, insônia, cefaleias tensionais e enxaquecas, dores musculares e articulares, desconfortos gastrointestinais, sintomas de abstinência leve de psicotrópicos.
Isso não quer dizer que a acupuntura substitui os medicamentos, mas sim que ela fortalece a capacidade do corpo de se autorregular, criando um ambiente interno mais estável para que a retirada medicamentosa ocorra com mais segurança e conforto.
Além disso, é uma prática que em sintonia com os ritmos individuais de cada paciente e atua de forma personalizada, sem introduzir novas substâncias químicas.
Na lógica da Medicina Tradicional Chinesa, tudo tem começo, meio e fim; inclusive um tratamento. A estagnação (como manter um medicamento indefinidamente) é considerada um bloqueio do Qi, um padrão que precisa ser movimentado e dissolvido.
Assim, a desprescrição também pode ser vista como um movimento de liberação do excesso, alinhado ao conceito de retornar à harmonia interna
O problema da inércia
Um dos motivos mais comuns pelos quais os medicamentos continuam sendo tomados indefinidamente é a inércia terapêutica. Isso acontece quando nem o médico nem o paciente propõem ou questionam mudanças, simplesmente porque as receitas se renovam automaticamente.
Às vezes, a pessoa nem lembra mais para que serve aquele remédio. Mas continua tomando. Porque “sempre tomou”.
Nesses casos, a simples pergunta “quando foi a última vez que você conversou com seu médico sobre todos os remédios que está tomando?” já pode abrir espaço para novas possibilidades. E muitos profissionais da saúde, incluindo acupunturistas e terapeutas integrativos, podem ser catalisadores dessa reflexão.
Comunicação é o começo
Desprescrever exige diálogo entre médico e paciente. E mais do que isso: exige uma nova forma de pensar a saúde. Uma forma em que o cuidado não se mede pela quantidade de comprimidos, mas pela capacidade de viver com mais autonomia e menos interferência.
A boa notícia é que já existem guias clínicos para desprescrição, ferramentas como o STOPP/START e o Beers Criteria, que ajudam profissionais a identificar medicamentos potencialmente inapropriados.
No Canadá, por exemplo, o projeto Deprescribing.org disponibiliza recursos gratuitos para médicos, farmacêuticos e pacientes, com algoritmos de decisão clínica e vídeos educativos.
No Brasil, ainda estamos engatinhando nesse tema, mas há cada vez mais interesse, especialmente entre profissionais da saúde integrativa, que veem o cuidado como algo que vai além da prescrição.
O corpo pode reaprender
Assim como um músculo pode atrofiar por falta de uso, o corpo pode perder parte da sua capacidade de regulação natural quando se torna excessivamente dependente de substâncias externas.
A boa notícia é que ele também pode reaprender.
O sistema nervoso tem neuroplasticidade, o intestino pode refazer sua microbiota, o sono pode se reorganizar sem ajuda química, o humor pode encontrar novos caminhos de estabilidade.
Mas, para isso, é preciso tempo, apoio e estímulo. A acupuntura é um desses estímulos. As práticas integrativas, o movimento, a alimentação consciente, a respiração, a conexão com o que faz sentido, tudo isso pode ser parte do plano.
E se menos for o suficiente?
Falar de desprescrição é falar de liberdade. É recuperar o direito de se perguntar: isso ainda me serve? E é entender que, muitas vezes, a saúde está justamente na redução, na delicada arte de retirar o excesso.
A boa medicina também sabe a hora de parar. E o corpo agradece.
Referências
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