Os números de suicídios seguem crescendo de forma preocupante no Brasil. Por trás de cada estatística existe uma vida interrompida, uma história que não encontrou escuta a tempo, uma dor que foi silenciada. Não se trata de um fenômeno isolado ou inesperado, mas do reflexo de uma sociedade que ainda falha em reconhecer a gravidade do sofrimento psíquico.
Mesmo com mais informação disponível, a pergunta permanece: por que os casos continuam aumentando? A resposta passa por um ponto central e ainda pouco enfrentado. Seguimos tratando a saúde mental como algo menor, como se não fosse uma questão real e urgente de saúde pública.
Ansiedade e depressão ainda são frequentemente minimizadas, ridicularizadas ou moralizadas. São chamadas de frescura, fraqueza emocional, falta de esforço ou ausência de fé. Em vez de cuidado, muitas pessoas recebem julgamento. Em vez de acolhimento, recebem críticas. Em vez de escuta, recebem frases prontas que invalidam profundamente a dor que estão vivendo.
O mais alarmante é que esse julgamento muitas vezes vem justamente de onde deveria existir proteção. Dentro da própria família, na rede de apoio e nos vínculos mais próximos, a pessoa adoecida encontra dedo apontado, questionamentos e desqualificação do sofrimento. São falas recorrentes, socialmente naturalizadas, mas emocionalmente devastadoras:
Por que você teria depressão se sempre teve de tudo?
Ansiedade é coisa de gente fresca.
Isso é mimimi.
Essas frases partem de uma lógica equivocada, que associa sofrimento psíquico à falta material ou à fragilidade de caráter. Como se ter uma vida aparentemente estruturada fosse garantia de saúde emocional. Não é. A dor psíquica não escolhe classe social, histórico familiar ou aparência de sucesso. Ela existe, independentemente do que se vê por fora.
Quando alguém busca ajuda e encontra julgamento, aprende que falar não é seguro. Aprende que sua dor será questionada, minimizada ou ridicularizada. Aprende que é melhor se calar do que se expor novamente. O silêncio, então, passa a ser uma estratégia de sobrevivência, ainda que profundamente adoecedora.
Além do preconceito externo, existe um outro ainda mais silencioso e destrutivo: o preconceito que a própria pessoa adoecida passa a carregar contra si mesma. Depois de ouvir repetidamente que sua dor é exagero, ela começa a acreditar nisso. Passa a se culpar por sentir, a se cobrar por não conseguir melhorar sozinha, a se envergonhar da própria fragilidade.
Esse preconceito internalizado faz com que muitas pessoas adiem ou evitem buscar ajuda profissional. Elas insistem em funcionar apesar do esgotamento emocional, tentam sustentar rotinas que já não conseguem manter e acreditam que pedir ajuda é sinal de fracasso. O sofrimento se prolonga, se aprofunda e se torna cada vez mais solitário.
Vivemos em uma cultura que valoriza desempenho, produtividade e controle emocional. Há pouco espaço para o limite, para a pausa e para a vulnerabilidade. Adoecer emocionalmente ainda é visto como falha pessoal, e não como um sinal legítimo de que algo precisa ser cuidado.
Nesse cenário, muitas pessoas seguem aparentando normalidade enquanto, internamente, estão exaustas. Funcionam no automático, ignoram sinais claros de adoecimento e resistem até não conseguir mais. Não porque desejam morrer, mas porque não encontram alívio para a dor que carregam.
É fundamental afirmar com clareza: falar sobre suicídio não incentiva o ato. O que incentiva o adoecimento é o silêncio, a negação e a invalidação do sofrimento. Falar sobre saúde mental, com responsabilidade, informação e acolhimento, salva vidas.
A maioria das pessoas que chega ao limite não quer morrer. Quer que a dor cesse. Quer descanso, compreensão e cuidado. Quer ser vista sem julgamento.
Tratar saúde mental não é luxo, exagero ou modismo. É cuidado básico. É prevenção. É compromisso com a vida. Assim como ninguém questiona a gravidade de uma doença física, não deveríamos questionar a gravidade de uma doença emocional.
Enquanto depressão e ansiedade continuarem sendo chamadas de frescura, pessoas continuarão adoecendo em silêncio. E algumas delas não conseguirão esperar até que o acolhimento chegue.
Reconhecer a dor não fragiliza. Humaniza.
Acolher não incentiva a doença. Protege.
O que mata não é falar. É não ouvir.












