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Quem é o outro? – por Sorayah Câmara

Não se conhece o outro verdadeiramente nem de uma maneira profunda e nem de uma maneira segura e certa.

Porém, numa primeira abordagem, nada parece mais simples do que o conhecimento das pessoas, umas em relação às outras.

Na verdade, o conhecimento do outro é um problema filosófico difícil, mesmo que pareça puerilmente fácil ao comum dos mortais.

Para a filosofia, os problemas aparentemente mais simples, as questões mais elementares são as mais difíceis de resolver.

Na filosofia, a maioria dos grandes pensadores clássicos só conseguiu encontrar, provar a sua própria existência pessoal, encerrados nas suas torres de marfim, só consigo próprios.

Há uma concepção muito pessimista, muito deprimente da humanidade que determina que uma pessoa esteja só, no seu interior e não pode sequer se comunicar com o outro, não possui acesso aos outros.

Ou seja, cada ser está isolado, encerrado, fechado em si mesmo.

É uma visão muito egocêntrica, muito “pessoal”, muito egoísta, muito “fechada” do indivíduo que nunca procura interessar-se pelos outros.

Portanto, existe uma maneira completamente diferente de encarar as relações humanas?

Quando conhecemos alguém, temos que combater a tendência natural de rejeição, de antipatia pelo outro e poder sentir um pequeno impulso, uma curiosidade favorável em relação ao outro.

Devemos ver no outro o que ele tem de único e, consequentemente, de insubstituível. Pois, todos os seres, por mais pobres que sejam intelectual e espiritualmente, por mais miserável que seja a sua alma, possuem uma originalidade própria, uma especificidade que os torna diferentes dos outros.

Para Jean- Paul Sartre, não há nada mais utópico, mais ridículo, mais irrealista do que imaginar que os homens desejam ou não podem “conhecer-se”.

Primeiramente, para existir, o homem toma consciência da sua liberdade, do seu eu profundo. A última etapa do homem é pelo “outro”.

Na realidade, para a grande maioria dos homens, os outros são indiferentes, apenas a hipocrisia social os leva a fingir que se interessam muito pela saúde do outro.

Por mais que podemos tentar reconstituir a personalidade do outro a partir dos traços do caráter, das suas manias, dos seus tiques, dos seus gostos, dos seus hábitos, nunca será suficiente para atingir as profundezas do seu espírito.

Como podemos saber com certeza quando o outro fala a verdade ou quando mente?

Em suma, se nos referimos à doutrina sartreana, a única solução possível para penetrar no interior de alguém seria simplesmente o olhar, isto é, a maneira mais profunda do ser interior de outro.

Sartre disse a célebre frase: “O inferno são os outros”. Ele mostrou como o conhecimento do outro está ligado ao ódio que os seres sentem uns pelos outros.

Portanto, é muito difícil saber qual é a verdadeira natureza do outro.

No âmago, é unicamente em circunstâncias graves, raras, excepcionais que a podemos descobrir.

“Os outros, infelizmente, somos nós.”
Bernanos (1888-1948), Carta de Palma, janeiro de 1945.

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