Os relacionamentos não estão se tornando escassos por falta de desejo, mas por falta de disponibilidade emocional real. Nunca se falou tanto sobre amor, diálogo e conexão e, ainda assim, nunca foi tão difícil sustentar vínculos ao longo do tempo. Esse cenário não surge por acaso. Ele reflete um adoecimento psíquico coletivo, marcado pela pressa, pela superficialidade e pela baixa tolerância às frustrações.
Encerrar um relacionamento não é apenas um acontecimento da vida cotidiana; é uma ruptura interna que exige elaboração. Todo término envolve perdas de projetos, expectativas, fantasias e do lugar que o outro ocupava no mundo psíquico. Quando esse luto não é vivido, ele não desaparece. Ele se desloca. Aparece nos vínculos seguintes, fragilizando novas relações antes mesmo de se consolidarem. Pessoas que não elaboram seus términos entram em novos relacionamentos sem estarem, de fato, disponíveis.
Nesse contexto, trocar de parceiro ou de parceira passou a ser algo simples, quase automático. Como uma peça de roupa que não serve mais, descarta-se, substitui-se e segue-se adiante. A ideia de “vida que segue” funciona, muitas vezes, como um atalho emocional para evitar o contato com a dor e com a responsabilidade afetiva. Esquece-se que vínculos não são objetos e que toda relação deixa marcas psíquicas.
Com isso, o comprometimento foi sendo esvaziado. Relacionamento deixou de ser entendido como escolha consciente e passou a ser tratado como algo que deve funcionar apenas enquanto não exige esforço emocional. No entanto, relacionamento é escolha diária. É decidir permanecer, conversar, revisar posições internas, sustentar conflitos e construir soluções. Não por obrigação, mas por responsabilidade com o vínculo e com o outro.
É importante esclarecer que não estamos falando de relacionamentos abusivos ou violentos, nos quais a ruptura é necessária e protetiva. Falamos aqui dos términos desacertados, precipitados, motivados pela incapacidade de lidar com frustrações, diferenças e desconfortos que fazem parte de qualquer relação saudável.
Esse cenário se agrava com um desequilíbrio psíquico cada vez mais presente nas relações. Observam-se homens com dificuldade de sustentar presença, constância e responsabilidade emocional, afastando-se do compromisso afetivo. Ao mesmo tempo, muitas mulheres, na tentativa de se proteger, acabam endurecendo, abafando a escuta, a sensibilidade e a receptividade. Não se trata de papéis sociais ou de gênero no sentido moral, mas de funções psíquicas simbólicas, presentes em todos nós. Quando essas funções entram em desequilíbrio, surgem conflitos desnecessários, disputas de poder e relações marcadas por tensão constante.
Esse desequilíbrio contribui diretamente para o adoecimento emocional. Relações frágeis e instáveis produzem ansiedade, sensação de vazio, medo constante de abandono e dificuldade de confiar. A mente passa a viver em estado de alerta, sempre esperando o próximo rompimento, o que impede o aprofundamento e a construção de segurança emocional.
Muito se fala sobre diálogo, mas pouco sobre compreensão. Falar, por si só, não sustenta um vínculo. É possível conversar por horas e ainda assim não haver entendimento. O diálogo só se torna transformador quando existe escuta real, reconhecimento e disponibilidade emocional. Sem compreensão, a conversa vira defesa, disputa ou silêncio, e o vínculo se esvazia.
A dificuldade de compreender está profundamente ligada à imaturidade emocional e ao medo da frustração. Compreender exige sair do próprio centro, rever certezas e sustentar desconfortos. Em uma sociedade que estimula rapidez, descartabilidade e soluções imediatas, esse trabalho interno é evitado. O resultado é a escassez de vínculos profundos e o aumento do sofrimento psíquico.
Do ponto de vista da saúde mental, relações estáveis organizam o psiquismo, fortalecem o senso de pertencimento e oferecem segurança emocional. Relações instáveis, ao contrário, desorganizam, adoecem e intensificam a solidão, mesmo quando há companhia.
Cuidar da saúde mental passa, inevitavelmente, por resgatar a noção de que relacionamento não é consumo, é construção. Vínculos exigem tempo interno, presença emocional e disposição para atravessar desconfortos. Exigem escolha, não apenas desejo; constância, não apenas intensidade.
Quando falta compreensão, o diálogo se esvazia. Quando falta elaboração, o vínculo se fragiliza. E quando tudo se torna descartável, o encontro com o outro perde profundidade. Não é o amor que está em crise, mas a capacidade de sustentar relações reais, com suas imperfeições, conflitos e ajustes.
Relacionamentos não adoecem apenas por falta de afeto.
Adoecem quando não há maturidade emocional para permanecer, responsabilidade afetiva para cuidar e disponibilidade psíquica para compreender. É nesse ponto que o vínculo deixa de ser escolha e passa a ser apenas tentativa. E tentativas, sozinhas, não sustentam o tempo.












