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Com licença? Muito obrigado – por Rubens Figueiredo

Civilização é limite; é dizer: “daqui não passa”; é interromper o mal quando ele se organiza como política de Estado, escreve Rubens Figueiredo

A diplomacia internacional, ao logo da história, ajudou muito o mundo a viver o ordenamento possível. Mas, de uns tempos para cá, transformou-se, em alguns casos, numa espécie de escola de boas maneiras aplicada a facínoras.

“Com licença, senhor ditador, poderíamos, por gentileza, solicitar que o senhor pare de assassinar seus opositores?”

“A eleição foi visivelmente uma fraude, mas por favor, não faça isso de novo. Tenha um bom novo mandato! Desculpe incomodá-lo e muito obrigado pela atenção.”

A Venezuela é o exemplo acabado dessa falência. Durante anos, o mundo civilizado tentou tudo: notas de repúdio, sanções graduais, mesas de diálogo, eleições de faz-de-conta, missões de observação, manifestos e relatórios de alto nível explicando o que não estava certo. Enquanto isso, 8 milhões de venezuelanos manifestaram sua opinião de uma forma que dispensa interpretação: fugiram! Um quarto do país foi embora. Por sobrevivência.

É curioso: quando uma guerra estoura, aceitamos a ideia de exceção, algo que não deu para evitar. Aí, pode. As bombas caem, entendemos que o protocolo falhou. Mas quando um regime mata com tiros, tortura na calada da noite e destrói um país em câmera lenta, exigimos compostura daqueles que criticam. Nosso benefício da dúvida é um convite da volta à barbárie. O assassino pode tudo. O questionamento, tem que seguir os trâmites mais elegantes.

Não existe — convém esclarecer — um “Princípio do Menor Delito” no direito internacional. Mas existe algo mais honesto: a consciência de que há momentos de fazer escolhas, em que todas as alternativas são ruins e a única pergunta razoável é qual delas produz menos devastação humana. A permanência ou não de Nicolás Maduro no poder não era uma opção neutra.

O argumento do “precedente perigoso” aparece sempre, solene. Como se o mundo estivesse em perfeito equilíbrio moral antes da prisão do venezuelano. Não havia registros de guerras em lugar nenhum. É como se o Oriente Médio estivesse em paz porque não explodiu uma bomba na semana passada. A leis são importantes porque impõem regras de convivência. Valem para todos, mas existem os que não as aceitam.

Por que um regime que infringiu um sofrimento descomunal ao seu povo, faliu um país com 17% das reservas de petróleo do mundo (e responde hoje por apenas 0,8% da produção mundial), esse monstro de incompetência, que contraria a ideia de civilização, deveria ser respeitado com regras civilizadas? Civilização é limite. É dizer: “daqui não passa”. É interromper o mal quando ele se organiza como política de Estado.

O mundo ficou mais agitado e polêmico, mas certamente ficou menos bárbaro porque um criminoso da pior espécie foi levado à Justiça americana, ao que consta a mais justa do mundo. O ideal seria que a Venezuela seguisse seu caminho por meio de eleições que expressassem a vontade dos cidadãos e cidadãs. Daqueles que continuam lá e de uma parcela do contingente de 8 milhões de pessoas que saíram de lá para não serem mortos.

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