A festa de Senhora Sant’Ana ocorre no dia 26 de julho. Data marcada no calendário da alma. Em Luís Gomes, esse dia nunca foi apenas religioso: era um chamado. Um convite para voltar — quem estava longe — ou para se reconhecer — quem nunca saiu. A cidade, plantada no alto da serra, parecia respirar mais fundo nessa época, como se soubesse que era o seu momento de se oferecer inteira.
Recordo os velhos tempos de outrora, bucólicos e suaves, quando o mundo era pequeno e, por isso mesmo, imenso. Tempos em que os namoros juntavam os namorados na calçada da casa da moça, sob o olhar atento — e fingidamente distraído — dos pais. Bastava um banco, a lua e uma conversa sem pressa. Amar era simples.
A meninada se esbaldava na chuva. Bastava o céu escurecer e os pingos engrossarem para que surgissem corridas, gritos e gargalhadas. O prêmio era tomar banho nas biqueiras dos telhados, como se cada queda d’água fosse uma cachoeira particular. Ninguém pensava em gripe, perigo ou censura: era alegria pura escorrendo pelos corpos.
À noite, depois do desligamento do motor, a cidade mergulhava numa escuridão cúmplice. Era então que os grupinhos de amigos se reuniam na praça central. Conversas soltas, planos improváveis, silêncios confortáveis. A luz vinha das estrelas — e da intimidade.
Havia também as aventuras quase proibidas: os mergulhos nos grandes caixões do fazendeiro e político Gaudêncio Torquato do Rego, onde se guardavam o algodão e a farinha. Para nós, eram piscinas improvisadas, territórios de ousadia, histórias que ainda hoje arrancam risos.
A vida era um passeio no engenho de rapadura, um ritual na bolandeira onde se produzia a farinha. Tudo tinha cheiro, som e sentido. O açúcar não vinha da prateleira: nascia do esforço. A comida tinha história antes de ter sabor.
Os estudantes universitários — orgulho da cidade — se reuniam na calçada da farmácia de Valdecir Pascoal. Ali se falava das experiências de cada um, dos desafios fora de casa, dos sonhos grandes demais para a serra — e, claro, se fofocava sobre a vida alheia, porque nenhuma comunidade vive sem seus pequenos enredos paralelos.
Foram tempos dos padres Miguel Nunes, Raimundo Caramuru de Barros, Valdécio Lopes e do amado padre Oswaldo Rocha, figuras que moldaram consciências, apaziguaram conflitos e ensinaram que fé também é gesto cotidiano.
Foram tempos de bons amigos: José Hildo Fernandes, Istênio Pascoal, Augusto de Maria Vicenza, João Batista, Valter Sandi — nomes que hoje soam como capítulos de um livro que só nós sabemos ler por inteiro.
Como esquecer o Grupo Escolar Coronel Fernandes, diligentemente dirigido pelo professor Chico Dubas, onde se aprendia mais do que letras e números: aprendia-se a ser gente.
E havia o brincalhão Severino Ramos, que dizia querer morrer num desastre de avião que cairia na Rua Nova, em Recife. Sonhava até com a manchete do jornal no dia seguinte: “Morreu em plena Rua Nova o trabalhador Severino Ramos”. Ríamos, sem imaginar que certas histórias sobrevivem justamente porque nunca aconteceram.
A cidade respirava ar puro. As ruas eram cheias de árvores, ainda sem asfalto, e o tempo parecia ter feito um acordo com a tranquilidade. E havia a linguiça de Tia Bebi — gostosíssima, insubstituível, memória que insiste em reaparecer sempre que a saudade aperta o estômago.
Luís Gomes era o centro do mundo. A maior referência geográfica de nossas vidas. Tudo partia dali. Tudo voltava para lá.
Chega de saudade, eu digo. Mas ela fica. Fica porque há lugares que não passam. Apenas se transformam em nós.












