JK?
Anos de chumbo grosso. Tempos magros, época de fechadura braba. Falar em Juscelino era, no mínimo, pecado mortal. Mudança das placas dos carros, as chamadas alfanuméricas. A Câmara Municipal de Diamantina oficia ao Contran solicitando as letras JK para as placas dos carros do município, “como uma forma de homenagear o grande estadista John Kennedy”. O Contran não atende. Um conterrâneo de Juscelino desabafa:
– Esse pessoal do Conselho deve ser republicano, eleitor do Nixon.
(Historinha de Zé Abelha)
Coisas de Jânio
Historinhas selecionadas pelo jornalista e escritor Nelson Valente. Primeira: o Prefeito Jânio Quadros, em 1987, dava entrevistas para os jornalistas sobre a sua administração (sobre a polêmica dos homossexuais do Teatro Municipal), quando uma jovem jornalista o interrompeu:
– Você é contra os homossexuais? Você vai exonerá-los?
O ex-presidente não gostou de ser tratado de “você” e deu o troco:
– Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora não quero ter aborrecimentos e, muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite.
Vieram e não me encontraram
Otávio Mangabeira foi governador da Bahia, ministro de Relações Exteriores e um sábio da velha política. Tinha um amor todo especial à língua. E cuidava do português a todo preço. Chega uma comissão de professoras ao palácio, Mangabeira as recebe no salão.
– Governador, nós viemos aqui conversar com V. Excelência sobre a situação do ensino na Bahia. (Deviam, claro, ter dito “vimos”, que é o presente. “Viemos” é o passado.).
Mangabeira respondeu apenas:
– Que pena, senhoras professoras, vieram e não me encontraram. E voltou para o gabinete.
Adão
O agricultor Antenor Vieira Borges, residente em Santa Catarina e que mandou ao presidente Jânio Quadros uma maçã de 850 gramas, colhida em sua plantação, recebeu o seguinte bilhete do presidente da República:
“Prezado Antenor:
Abraços. Recebi a maçã de 850 gramas, que você enviou, produto da técnica e das terras catarinenses. Um colosso! Não há Adão que resista a essa fruta”.
De Jânio
Os memorandos de Jânio Quadros são folclóricos. Denotam o estilo inconfundível do inesquecível ex-presidente da República e ex-prefeito de São Paulo. Eis o Memorando JQ 506/86 de 2/4/1986, pinçado do livro do amigo jornalista Nelson Valente, Jânio Quadros – O Estadista.
Dr. Ricardo Veronesi:
Secretaria de Higiene e Saúde
Elogie a servidora Dra. Thácia Leimig, pela sua conduta funcional, fazendo constar o elogio em sua folha de serviços;
Suspenda os médicos, Drs. Aldo Francisco Bárcia Alves; Cecília Regina S. Marques; Maria Silva Furquim Leite de Almeida, por 3 (três) dias;
Suspenda o médico, Dr. Francisco M. de Medeiros Neto, por 10 (dez) dias;
Demita o médico, Dr. Paulo Ribeiro da Cunha. Demissão imediata.
Agora, poderá dormir.
Advirta o diretor do Hospital de que, na próxima fiscalização, farei submeter os faltosos, todos do Hospital “Tide Setúbal”, a inquérito administrativo.
Advirta a firma que faz limpeza do Hospital, enquanto considero penalidade mais grave.
Cumpra-se imediatamente.
Jânio da Silva Quadros, prefeito
Malícias de Tancredo
As próximas historinhas são de Tancredo Neves, o avô do senador Aécio, contadas pelo amigo Sebastião Nery.
Tancredo dava uma entrevista e o jornalista anotava tudo. Quando acabou, Tancredo Neves leu. Estava escrito:
– Não pretendo ser governador de Minas.
Tancredo pediu licença, emendou com a própria caneta: “Não pretendo ser candidato a governador de Minas”.
E outra. Geraldo Rezende, editor político de O Diário, sábio e santo, conversava com Tancredo no final da campanha para o governo de Minas, em 1960, contra Magalhães Pinto:
– Tancredo, você precisa ter fé. Dê uma passada no Santuário de São Geraldo, em Curvelo, que São Geraldo não esquece seus devotos.
Tancredo foi lá. Perdeu as eleições para Magalhães. Telegrafou a Geraldo:
– Geraldo, São Geraldo esquece seus devotos.
Meses depois, Jânio renuncia, assume Jango. Tancredo é primeiro-ministro. Geraldo telegrafa a Tancredo:
– Tancredo. São Geraldo não esquece seus devotos.












