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O mito de Atlântida e o Brasil – por Cesar Romão

Desde Platão, Atlântida é descrita como uma civilização avançada, rica em recursos, tecnologia e poder, mas que aos poucos se deixou seduzir pelo excesso, pela vaidade e pela crença de que sua grandeza era indestrutível. O mito não fala apenas de uma ilha que afundou, fala de uma sociedade que perdeu o senso de limite, que trocou virtude por ostentação e propósito por conforto, até que a própria estrutura que a sustentava se tornou frágil demais para resistir às crises que viriam.

Atlântida não caiu por falta de riqueza, caiu por falta de consciência.

Quando olhamos para o Brasil de hoje, a comparação não é literal, mas é profundamente simbólica. Somos um país abundante em natureza, criatividade, diversidade cultural e capacidade de reinvenção, mas que muitas vezes parece caminhar como se esses recursos fossem infinitos e garantidos.

A sensação de que sempre se “dá um jeito” cria uma cultura de improviso permanente, onde problemas estruturais são empurrados para depois, enquanto celebramos pequenas vitórias como se fossem provas de que tudo está funcionando, mesmo quando os sinais de desgaste estão por toda parte.

Atlântida acreditava que seu poder a tornava imune às consequências de suas escolhas, e talvez esse seja o ponto mais perigoso de qualquer sociedade, quando o sucesso passado vira desculpa para a negligência presente.

No Brasil, isso se manifesta na normalização do desperdício, na desigualdade tratada como paisagem, na corrupção excessiva, na burocracia que paralisa e no cansaço coletivo que transforma indignação em resignação. Aos poucos, a exceção vira regra e a regra vira algo negociável, até que a erosão deixa de ser visível, mas continua acontecendo por dentro.

O Mito também fala de uma elite desconectada da realidade do próprio povo, tomada por disputas de poder e símbolos de status, enquanto a base que sustenta a sociedade se fragiliza.

Essa distância entre quem decide e quem vive as consequências é um traço que atravessa séculos e fronteiras, mas no Brasil ela ganha contornos quase cotidianos, quando políticas parecem ignorar o impacto real na vida das pessoas e a sensação de pertencimento vai sendo substituída por uma relação de desconfiança e sobrevivência individual.

Mas se Atlântida termina em ruína, o Brasil ainda está no meio da história, e isso muda tudo. O Mito serve como alerta, não como sentença.

Diferente da ilha que afundou em um único dia, países se transformam lentamente, por escolhas acumuladas, por cultura, por educação e por consciência coletiva. O mesmo povo que normaliza o caos também é capaz de criar soluções, empreender, acolher e reinventar caminhos mesmo em cenários adversos.

A pergunta não é se temos potencial, porque isso já está provado, a pergunta é se estamos dispostos a trocar atalhos por construção, imediatismo por visão de longo prazo e espetáculo por responsabilidade.

Talvez a maior semelhança entre Atlântida e o Brasil não esteja na queda, mas na encruzilhada. Toda civilização chega a um ponto em que precisa decidir se vai continuar repetindo padrões confortáveis ou se vai encarar mudanças profundas, que doem, que exigem maturidade e que não rendem aplauso imediato.

O Mito sobrevive há milhares de anos porque ele fala menos sobre oceanos e terremotos e mais sobre comportamento humano, sobre a tendência de confundir prosperidade com invulnerabilidade.

Se aprendermos com essa história, o Brasil não precisará ser uma Atlântida moderna, pode ser exatamente o oposto, um exemplo de que é possível reconhecer os próprios excessos, corrigir rotas e transformar abundância em desenvolvimento real, antes que o preço da negação se torne alto demais para ser ignorado.

O Brasil não está construindo uma curva decadente por falta de riqueza ou por uma população fragmentada e sim por falta de consciência.

Segundo registros, o Mito aparece pela primeira vez nos diálogos entre Timeu e Crítias, onde Platão se refere à Atlântida como uma antiga civilização que tentou invadir a Grécia. Mas a narrativa também reflete a condição política que Atenas estava promulgando. E como castigo pela conduta sem civismo, justiça ou moral social Atlântida afundou no oceano por meio de catástrofes naturais.

No Brasil nossas catástrofes são políticas, sem nenhum vulcão ou terremotos avassaladores. Com a impunidade generalizada à indignação da população cresce, nem o assistencialismo social pode ocultar tal fato. Não estamos afundando no oceano, mas sim na lama de um país sem Justiça, este conceito amplo sobre dar a cada um o que lhe é devido, buscando equidade, retidão e conformidade com o Direito, como um valor fundamental para a ordem social e respeito aos direitos e à dignidade de todos.  

Cesar Romão
Palestrante – Escritor – Jornalista

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