Vivemos uma época em que a única certeza parece ser a própria incerteza. O mundo atravessa um período de transição turbulenta, marcado por instabilidades políticas, econômicas, sociais e tecnológicas que desafiam modelos consagrados de organização do poder, da economia e da convivência social. A sensação difusa de insegurança não é fruto de imaginação coletiva: ela se ancora em fatos, visíveis no cotidiano das nações e na vida dos indivíduos.
No plano internacional, a ordem global construída após a Segunda Guerra Mundial dá sinais evidentes de esgotamento. Instituições multilaterais, como a ONU, o Conselho de Segurança e organismos financeiros internacionais, revelam dificuldades crescentes para arbitrar conflitos, conter guerras regionais ou impor consensos mínimos. A guerra voltou a ocupar o centro da cena geopolítica, não mais como exceção, mas como instrumento recorrente de disputa de poder. Conflitos armados, tensões nucleares, disputas territoriais e a corrida armamentista recolocam o mundo diante do fantasma de crises sistêmicas.
A economia global também se move em terreno instável. O crescimento desacelera, cadeias produtivas se fragmentam, o protecionismo ressurge e a desigualdade se aprofunda. O modelo de globalização que prometia prosperidade compartilhada produziu ganhos assimétricos, concentrando riqueza em poucos polos e ampliando frustrações sociais. Inflação persistente, endividamento público elevado e insegurança no mercado de trabalho alimentam o sentimento de vulnerabilidade das classes médias e populares, corroendo a confiança no futuro.
No campo político, a incerteza se traduz na erosão da democracia representativa. Cresce o descrédito nas instituições, nos partidos e nos líderes tradicionais. A política passa a ser vista mais como fonte de problemas do que como espaço de soluções. Esse vácuo de confiança abre caminho para discursos simplificadores, populismos de diferentes matizes e lideranças que se apresentam como salvadores da pátria, muitas vezes dispostos a relativizar regras, instituições e direitos em nome da “vontade do povo”.
As redes digitais intensificam esse ambiente de instabilidade. A velocidade da informação, combinada com a desinformação em escala industrial, cria realidades paralelas, fragmenta consensos e dificulta o diálogo público. Verdades deixam de ser fatos verificáveis para se tornarem crenças compartilhadas por bolhas. A política emocional substitui o debate racional, e o conflito permanente passa a ser método e estratégia.
No plano social, a incerteza assume feições existenciais. Mudanças tecnológicas aceleradas, como a inteligência artificial, redesenham profissões, alteram relações de trabalho e provocam angústias legítimas sobre o lugar do ser humano num mundo cada vez mais automatizado. A promessa de progresso convive com o medo da obsolescência, da exclusão e da perda de sentido.
O Brasil não está imune a esse quadro. Ao contrário, reflete e amplifica muitas dessas tensões. Polarização extrema, instabilidade fiscal, dificuldades estruturais na prestação de serviços públicos e uma crônica crise de confiança entre Estado e sociedade alimentam um ambiente de incerteza permanente. Eleições tornam-se momentos de ansiedade coletiva, nas quais expectativas excessivas se chocam com a dura realidade da governabilidade.
É importante reconhecer que épocas de incerteza não são inéditas na história. Grandes transformações sempre foram precedidas por períodos de confusão, medo e disputas. A diferença, hoje, é a simultaneidade das crises e a velocidade com que se propagam. Tudo acontece ao mesmo tempo, em todos os lugares, sob os olhos atentos — e inquietos — de uma sociedade hiperconectada.
Diante desse cenário, o desafio central é reconstruir referências. Fortalecer instituições, recuperar a credibilidade da política, investir em educação crítica e promover pactos mínimos de convivência democrática tornam-se tarefas urgentes. A incerteza não precisa ser sinônimo de paralisia. Pode ser, também, uma oportunidade de revisão de rumos, de reinvenção de práticas e de construção de novos consensos.
Em tempos assim, mais do que respostas fáceis, o que se exige é lucidez. A travessia será longa e complexa. Mas a história ensina que sociedades que enfrentam a incerteza com responsabilidade, diálogo e visão de longo prazo têm mais chances de transformar crises em aprendizado — e instabilidade em caminho para a renovação.












