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O mundo entre aspas – por Gaudêncio Torquato

As aspas sempre ocuparam lugar nobre no jornalismo. Funcionam como um selo de veracidade: indicam que determinada afirmação foi dita por alguém identificável, preservam a fidelidade do relato e protegem o jornalista. Ao leitor, sugerem acesso direto à fonte, sem filtros aparentes. No entanto, no ambiente político contemporâneo — marcado pela expansão dos sistemas de poder, pela comunicação em tempo real e pela hiperexposição das lideranças — as aspas deixaram de ser apenas um recurso técnico. Tornaram-se um dos principais motores da polarização. Vivemos, cada vez mais, em um mundo entre aspas. 

No plano formal, a função das aspas é legítima. O jornalista não afirma, cita. Mas essa neutralidade é apenas aparente. As aspas são fruto de uma escolha editorial. Entre discursos longos, complexos e cheios de nuances, seleciona-se a frase curta, cortante, emocionalmente carregada. O que chega ao público não é o pensamento integral do emissor, mas um fragmento — e fragmentos moldam percepções, simplificam conflitos e radicalizam posições. 

À medida que os sistemas políticos se expandem — seja em democracias consolidadas, regimes híbridos ou governos autoritários — cresce a disputa simbólica por visibilidade. Nesse cenário, a política passa a ser travada menos no campo das ideias estruturadas e mais no território das frases citáveis. Líderes falam para serem recortados. Governos se comunicam pensando em manchetes. O poder se exerce, muitas vezes, por meio de palavras isoladas que circulam globalmente em segundos. 

As aspas, assim, deixam de apenas registrar a realidade e passam a organizá-la em campos opostos. Uma declaração destacada provoca reação imediata. O adversário responde com outra frase, igualmente dura, igualmente enquadrada. Forma-se um ciclo de aspas contra aspas, no qual o debate público se converte em sucessão de choques verbais. A política global assume contornos de arena retórica permanente, em que cada frase reforça identidades e amplia antagonismos. 

Quando essas declarações partem de lideranças — presidentes, primeiros-ministros, juízes, generais ou chefes partidários —, o efeito se multiplica. A palavra citada não apenas expressa uma opinião; ela legitima emoções coletivas, autoriza comportamentos e cristaliza narrativas simplificadas sobre a realidade. Em um mundo hiper conectado, uma frase entre aspas atravessa fronteiras, alimenta bolhas ideológicas e reforça polarizações que já não são apenas nacionais, mas globais. Aliás, a polarização tem sido o traço mais visível do cenário global. A política deixa de orbitar em torno de consensos mínimos, passando a se organizar em campos identitários antagônicos. Donde se pode concluir que a paisagem será cada vez mais povoada de aspas.  

O jornalismo, nesse contexto, enfrenta um dilema delicado. Ao reproduzir falas sem contextualização suficiente, corre o risco de deixar de ser mediador e tornar-se catalisador do conflito. Não cria a polarização, mas pode amplificá-la ao privilegiar o trecho mais explosivo da fala. A fidelidade literal permanece; a fidelidade ao sentido amplo, nem sempre. 

Há também uma dimensão ética incontornável. A frase pode estar correta na forma e equivocada no efeito. Retirada do contexto, preserva a verdade factual, mas empobrece a compreensão. O leitor recebe impacto emocional, não esclarecimento. O resultado é um debate público cada vez mais reativo, menos reflexivo e mais prisioneiro de palavras em disputa. 

Paradoxalmente, as aspas são indispensáveis à democracia. Garantem pluralidade de vozes, transparência e responsabilidade. O problema não está em seu uso, mas em seu abuso. Quando se transformam em munição simbólica, substituem ideias por frases de efeito e aprofundam trincheiras políticas. 

No ecossistema político-midiático contemporâneo, as aspas deixaram de ser apenas sinais gráficos. Tornaram-se atores centrais da dramaturgia do poder. Informam, mas também inflamam. Esclarecem, mas frequentemente polarizam. O desafio do jornalismo, num mundo cada vez mais entre aspas, é devolver densidade ao discurso público — antes que a política global se reduza, definitivamente, a uma guerra permanente de frases. 

É, sobretudo, o inalienável dever do jornalismo de bem informar à sociedade, o dever de buscar a verdade. 

Verdade que sempre se fez presente no ideário dos grandes protagonistas da história.  

Jesus Cristo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6); “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32).  

Winston Churchill:  “Uma mentira consegue dar a volta ao mundo antes que a verdade tenha tempo de calçar as suas botas”; “O que é obviamente verdade não é relevante, e o que é relevante não é obviamente verdade”. 

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