É verdade que pesquisa é fotografia do momento. Não prevê o futuro nem substitui o voto. Porém, fotografias sucessivas revelam movimento e, em política, movimento costuma anteceder resultado
Quem vencerá as eleições de outubro? Lula ou Flávio Bolsonaro? Em um país dividido, a pergunta deixou de ser curiosidade e se transformou em termômetro emocional. A cada nova pesquisa, reacendem-se expectativas, medos e cálculos eleitorais. Mas até que ponto esses números antecipam o que ocorrerá nas urnas?
É verdade que pesquisa é fotografia do momento. Não prevê o futuro nem substitui o voto. Porém, fotografias sucessivas revelam movimento e, em política, movimento costuma anteceder resultado. A sucessão de retratos permite observar se há consolidação, desgaste ou deslocamento silencioso do eleitorado.
As lições dos últimos pleitos
Ao observar as seis últimas eleições presidenciais, emerge um dado relevante: exceto em 2010 e 2018, o candidato que liderava no início do ano confirmou a vitória.
Em 2002, Lula registrava cerca de 34%, contra 22% de Serra, e venceu. Em 2006, liderava com aproximadamente 47%, enquanto Alckmin tinha 21%, e confirmou a vantagem. Em 2014, Dilma aparecia com 41% diante dos 17% de Aécio e consolidou a liderança. Em 2022, Lula tinha 43%, Bolsonaro 25%, e o padrão se repetiu.
O dinamismo das eleições
As exceções ajudam a compreender a regra. Em 2010, Serra liderava com 36%, Dilma tinha 27%, mas a petista apresentou crescimento contínuo ao longo do ano e virou o jogo. Em 2018, Lula figurava com cerca de 35% contra 17% de Bolsonaro, mas sua inelegibilidade reconfigurou completamente o cenário eleitoral.
O padrão histórico não é mágico, mas é instrutivo: ou o líder permanece consolidado, ou o segundo colocado cresce com consistência suficiente para alterar o equilíbrio. As eleições raramente são decididas por estagnação.
Lula e Flávio Bolsonaro
Hoje, as pesquisas indicam empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro. A diferença está dentro da margem de erro. Contudo, a margem não é o único indicador relevante. Mais importante do que a distância numérica é a direção da curva. Crescimento sucessivo em levantamentos distintos sugere tendência. Oscilação isolada pode ser apenas ruído estatístico.
Há ainda um fator pouco discutido: o comportamento do voto espontâneo. Quando o avanço aparece também nesse indicador, o movimento tende a ser mais estrutural do que circunstancial. Soma-se a isso o chamado “efeito incumbência”: presidentes que disputam reeleição ou mantêm forte presença institucional partem de patamar elevado, mas também enfrentam maior desgaste natural. Já o campo oposicionista costuma crescer quando consegue unificar expectativas e canalizar insatisfações difusas.
Alexis de Tocqueville observava que as grandes transformações políticas raramente se anunciam com estrondo; avançam quase imperceptivelmente até que, quando percebidas, já se tornaram realidade. O eleitorado também se desloca assim: primeiro lentamente, depois de forma decisiva.
A influência dos outros candidatos
Outras variáveis ainda poderão interferir. Nomes como Zema, Caiado, Michelle Bolsonaro, Ratinho e Eduardo Leite não aparecem hoje como líderes, mas influenciam parcelas do eleitorado. Caso optem por não disputar, é razoável supor que parte significativa de seus eleitores migre para o campo oposicionista, alterando o equilíbrio atual.
O mesmo vale para alianças regionais, desempenho econômico nos próximos meses e eventuais crises políticas, capazes de produzir mudanças abruptas no humor coletivo.
Isso significa que a eleição já está definida? Evidentemente, não. Mas ignorar tendências iniciais pode ser tão imprudente quanto tratá-las como sentença cristalizada.
A fotografia do meio do ano
Se o padrão histórico se repetir, o candidato que chegar ao meio do ano demonstrando tração consistente entrará na reta final com vantagem psicológica e política. Se houver consolidação de liderança, a probabilidade de confirmação aumenta. Em política, o futuro raramente surge do nada; ele começa como tendência.
A pergunta, portanto, talvez não seja apenas quem lidera hoje, mas quem está construindo o amanhã, e em que direção o eleitorado começa a caminhar.
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