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Quarta-Feira de Cinzas de Lula – Tiberio Canuto Queirós Portela

O carnavalesco da Acadêmicos de Niterói não leu Brasil no Espelho. Se leu, não compreendeu nada. A conclusão do livro de Felipe Nunes é clara: o Brasil é um país tradicionalista, cujos dois pilares centrais são a família e a religião. São eles que estruturam a visão de mundo do nosso povo. Pois bem, a escola de samba de Niterói levou para a pista do Sambódromo da Marquês de Sapucaí um ataque direto a esses dois valores. De quebra, atacou o agronegócio, hoje com papel fundamental não só na economia brasileira, ,mas também em nossa cultura. Basta citar outra constatação de Brasil no Espelho: a música sertaneja é a mais ouvida pelos brasileiros. Sabem qual é a segunda? A música gospel!

A estupidez política foi tamanha que me fez lembrar de um episódio relatado no primeiro volume da obra de Elio Gaspari sobre a ditadura. Às vésperas do Comício da Central, em 13 de março de 1964, o general Antônio Carlos Murici, um golpista da primeira hora e de outros carnavais, descobriu que alguns oficiais planejavam colocar bombas embaixo do palanque onde horas depois estaria o então presidente João Goulart. Murici interveio para evitar que a porra-louquice de um grupo de oficiais de baixa patente estragasse os planos do Estado-Maior do golpe. “Não faça isso, é essencial que o comício aconteça”, disse Murici.

Não por amor à democracia, mas por avaliar que o Comício da Central, com o comandante do Exército no palanque janguista, coesionaria o grosso das Forças Armadas, com sua cadeia de comando aderindo ao golpe. De fato, o Comício da Central empurrou para o Golpe de 64 a parte da oficialidade que estava em cima do muro.

Não sei se os bolsonaristas têm o raciocínio sofisticado do general Murici. Até porque, se tivessem, não teriam entrado no Tribunal Superior Eleitoral com pedido de proibição do desfile da Acadêmicos de Niterói. Se tivessem raciocínio estratégico sofisticado, teriam concluído que era essencial o desfile acontecer.
Sem dúvida, o desfile da escola cujo enredo era a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva só serviu para sedimentar o anátema entre o candidato Lula e os evangélicos, o agronegócio e o eleitor conservador, de maneira geral.

Patinhas é o apelido de João Santana, ex-marqueteiro de Lula e de Dilma Rousseff. Nas vésperas do carnaval, Patinhas fez a premonição de que o desfile da Acadêmicos poderia até provocar euforia no eleitorado petista, mas seria muito mal recebido no universo evangélico e no eleitorado do interior, em estados onde o agronegócio é preponderante.

Pelo andar da carruagem, vai ficando claro que Patinhas tinha razão. No carnaval, as coisas muitas vezes acontecem assim: depois da euforia, vem a ressaca da Quarta-Feira de Cinzas. Lula já deve estar cantarolando:

É de fazer chorar, quando o dia amanhece
E obriga o frevo a acabar.
Oh, quarta-feira ingrata
chega tão depressa
Só para contrariar!
Quem de fato é pernambucano
Espera um ano e se mete na brincadeira,
Esquece tudo, cai no frevo —
E, no melhor de tudo, chega a quarta-feira.

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