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A romantização das relações sociais e a hipocrisia do cotidiano – por João Costa

A vivência diária, pautada na entrega e no compromisso de fazer o que deve ser feito ou ao menos aquilo que acreditamos ser correto pode parecer admirável. Em muitos casos, chega a ser vista como um ideal de vida.

No entanto, quando observada mais de perto, essa postura frequentemente flerta com a ingenuidade. Isso porque poucos, de fato, sustentam esse idealismo com autenticidade. Na prática, a maioria das pessoas está apenas correndo sem direção clara, sem propósito definido e, não raramente, sem um real entendimento do porquê. Vive-se em movimento constante, mas nem sempre com sentido.

A justificativa é quase unânime: falta tempo. Tempo para viver, para sentir, para se conectar. E assim seguimos, impreterivelmente, rumo a um destino que raramente é questionado. Vale a pena essa corrida? Vale a pena essa lógica de vida?

No fim das contas, a resposta parece simples ainda que desconfortável: não levamos nada. O que permanece são os momentos vividos, as experiências construídas, os vínculos reais e não os números acumulados em uma conta bancária. Ter dinheiro é, sim, importante. É necessário. Mas apenas quando carrega propósito, quando está alinhado a um sentido de pertencimento e realização. Do contrário, transforma-se em um acúmulo vazio, uma repetição automática de dias que passam sem, de fato, serem vividos.

E talvez essa seja a maior contradição do nosso tempo: enquanto buscamos tanto, sentimos cada vez menos. Como bem observou o sociólogo e filosófico polonês, Zygmunt Bauman, vivemos em uma era de relações líquidas frágeis, voláteis e descartáveis onde a profundidade cede lugar à superficialidade e o imediatismo substitui o essencial.

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