Os últimos dez anos foram os mais quentes já registrados desde o início das medições instrumentais, de acordo com os dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM). As soluções de enfrentamento às mudanças climáticas, que são causadas pelas atividades humanas desde a Revolução Industrial, são variadas e envolvem diferentes tipos de tecnologia e de custos de implementação. Estamos em uma encruzilhada climática e as escolhas tomadas neste ponto terão impactos decisivos no futuro do planeta: as soluções com maior custo efetividade e resultados já no curto prazo (como a conservação florestal) precisam de maior atenção.
Os projetos de carbono de conservação florestal (identificados a partir da sigla REDD+) geram alternativas econômicas para conter o avanço do desmatamento (que pode ser ilegal ou legal), a partir da geração de créditos de carbono. No entanto, esses projetos hoje enfrentam uma crise reputacional causada, de forma relevante, pelo próprio mercado. Nos últimos anos, reportagens internacionais, investigações independentes e análises de especialistas passaram a questionar sua integridade.
No Brasil, o desmatamento é a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa. Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), esse setor respondeu por mais de 40% das emissões totais do país em 2023. No entanto, apesar da evidente importância de incentivar atividades que ofereçam alternativas econômicas ao desmatamento, o debate sobre a integridade dos projetos de carbono de conservação florestal ganhou escala global, expondo fragilidades relacionadas à transparência, verificação fundiária e ao uso de metodologias de quantificação de carbono.
Expressões como adicionalidade, contabilidade de carbono e permanência passaram a ocupar discussões em fóruns sobre clima e carbono, além de reportagens investigativas. Ao mesmo tempo, empresas compradoras de créditos se tornaram mais cautelosas diante do risco reputacional associado ao chamado greenwashing (quando a comunicação ambiental não corresponde aos impactos reais). O resultado atualmente é um mercado que, embora tenha enorme potencial ambiental e econômico, vive uma crise de credibilidade.
A partir de 2023, matérias divulgadas na imprensa internacional apontaram possíveis situações de superestimação na geração de créditos de carbono, trazendo à tona fragilidades relacionadas às abordagens metodológicas utilizadas na definição das linhas de base. As linhas de base definem o cenário contrafactual de desmatamento nas áreas do projeto, estimando as emissões que ocorreriam na ausência da intervenção. A diferença entre esse cenário e o cenário com projeto fundamenta a quantificação dos créditos de carbono gerados.
Além das polêmicas envolvendo a contabilização da quantidade de carbono gerado em projetos ao redor do mundo, em 2024, no Brasil, a Operação Greenwashing revelou um esquema de venda irregular de créditos de carbono em áreas da União que haviam sido ilegalmente apropriadas, incrementando ainda mais a desconfiança no mercado de conservação florestal.
Fatores como diligências fundiárias superficiais, brechas metodológicas e estruturas financeiras dependentes da pré-venda de créditos em fases ainda imaturas, culminaram em um desgaste que impactou fortemente a reputação dos projetos. Como consequência, o preço desses ativos despencou.
Um crédito de carbono só possui valor climático quando representa emissões que deixaram de ocorrer por causa do projeto, e que de fato aconteceriam se ele não existisse (especialistas atribuem a isso o termo adicionalidade). Nesse sentido, ao serem desenvolvidos em áreas com alta pressão por desmatamento, os projetos de conservação estão realmente contribuindo para a mitigação de emissões (cenário que muda se estes projetos estiverem localizados em áreas com baixo interesse econômico e, portanto, baixa pressão pelo uso alternativo do solo).
Quando inconsistências na demonstração de adicionalidade e na contabilidade de carbono se tornam públicas, o efeito não se limita a casos isolados, mas contaminam a percepção sobre todo o mercado. Por isso, reconstruir a confiança exige reconhecer erros do passado e estabelecer critérios que certifiquem que as ações desenvolvidas realmente estão endereçando problemas climáticos.
A primeira mudança necessária é tratar a transparência como requisito básico. Partes interessadas no projeto (compradores, investidores, comunidades, comunicadores, setor público, etc.) devem ter evidências claras sobre o funcionamento das iniciativas: acesso facilitado a documentos fundiários, relatórios de monitoramento, mapas de uso da terra, imagens de satélite atualizadas e registros das atividades de campo.
Outro pilar essencial é a segurança fundiária. Em iniciativas de conservação florestal do tipo REDD+, o direito de uso da terra sustenta a própria geração do crédito. Se a titularidade da área é contestada, sobreposta ou mal documentada, a base da iniciativa se fragiliza e, com ela, a credibilidade do crédito gerado. Esse tema ganha ainda mais relevância em um país como o Brasil, marcado por conflitos fundiários históricos, registros sobrepostos e cadastros incompletos. Investidores internacionais estão cada vez mais atentos a esses riscos, e inconsistências podem resultar em questionamentos públicos ou até na suspensão do registro de projetos.
O modelo de financiamento também influencia a integridade do setor. Estruturas baseadas em pré-venda agressiva de créditos podem gerar incentivos equivocados, pressionando o desenvolvimento de iniciativas antes que suas bases técnicas e sociais estejam consolidadas. Projetos florestais exigem capital paciente e investidores dispostos a priorizar consistência e governança ao longo do tempo, a despeito de retornos imediatos.
No rol de aspectos fundamentais para a estrutura robusta de projetos de alta integridade, a governança territorial também é imprescindível. A permanência da conservação depende das pessoas, da governança local e da dinâmica socioeconômica da região. Desenvolver atividades econômicas a partir da bioeconomia assegura a importância da floresta em pé ao longo do tempo, além de endereçar um componente histórico da realidade brasileira: a desigualdade social.
É nesse ponto que o conceito de cobenefícios ganha relevância. Iniciativas de alta integridade precisam demonstrar não apenas emissões evitadas, mas também impactos positivos em biodiversidade, geração de renda, fortalecimento institucional e desenvolvimento local. Esses fatores reduzem riscos de reversão, fortalecendo e garantindo a manutenção da floresta no longo prazo, inclusive além do tempo estipulado para a existência do projeto.
Resgatar a credibilidade dos projetos de conservação florestal é urgente, pois evitar o desmatamento é uma solução custo-efetiva de curto prazo fundamental para a mitigação das mudanças climáticas. Conservar é barato e fecha a torneira da maior fonte de emissões no Brasil. No entanto, a conservação florestal precisa assegurar efetividade climática, ou seja, realmente evitar emissões que ocorreriam em determinados territórios, pressionados por atividades ilegais ou pelo avanço do agronegócio.
Para este mercado se restabelecer, é preciso que projetos que seguem padrões mais elevados de diligência fundiária, linhas de base conservadoras, transparência e compromisso territorial de longo prazo sejam valorizados para quebrar o ciclo da baixa integridade. Nesta encruzilhada climática, é preciso separar o joio do trigo, mas sem deixar para trás soluções que realmente evitam emissões e tenham impacto positivo no clima.
Isabella Mondino é Head de Negócios de Carbono da ZEG, empresa especializada em soluções para descarbonização, e especialista em políticas climáticas e sustentabilidade.












