A imagem clássica da guerra — tanques avançando, aviões rasgando os céus, soldados ocupando territórios — já não é suficiente para explicar os conflitos contemporâneos. O campo de batalha mudou. Hoje, a guerra moderna não se trava apenas com exércitos, mas com infiltrados, narrativas e sombras.
O pensador militar Carl von Clausewitz afirmava que a guerra é a continuação da política por outros meios. A máxima permanece atual, mas precisa ser ampliada: a política, agora, também se faz por meio de guerras silenciosas, difusas e muitas vezes invisíveis aos olhos da opinião pública. Não se trata mais apenas de conquistar territórios físicos, mas de dominar territórios simbólicos — a mente, a percepção e a crença das sociedades.
As grandes potências compreenderam essa mutação. Em vez de mobilizar apenas tropas, investem em inteligência, espionagem e operações psicológicas. Infiltrados atuam em redes, organizações e até governos, coletando informações e influenciando decisões. A guerra, nesse plano, é travada por agentes sem farda, que operam nas sombras e cujo sucesso depende mais da discrição do que da força.
Mas o elemento mais poderoso desse novo cenário talvez seja a narrativa. Como ensinava Walter Lippmann, a opinião pública responde às imagens da realidade, não necessariamente à realidade em si. Quem controla a narrativa controla, em grande medida, o resultado político do conflito. É por isso que guerras contemporâneas são acompanhadas por intensas batalhas de comunicação: versões, contraversões, desinformação, propaganda.
A tecnologia ampliou exponencialmente esse fenômeno. Redes sociais transformaram cidadãos em difusores de conteúdo, dissolvendo a fronteira entre emissores e receptores. A velha teoria da “agulha hipodérmica”, que supunha uma comunicação direta e uniforme, foi substituída por um ecossistema caótico, onde múltiplas vozes disputam atenção e credibilidade. Nesse ambiente, a verdade se fragmenta, e a guerra informacional ganha centralidade.
Os conflitos recentes mostram essa nova lógica. Ataques cibernéticos podem paralisar infraestruturas críticas sem um único disparo. Campanhas digitais podem desestabilizar governos ou influenciar eleições. Vazamentos seletivos podem destruir reputações e alterar o curso de negociações internacionais. Tudo isso ocorre sem o espetáculo tradicional da guerra, mas com efeitos muitas vezes mais profundos.
Nesse contexto, a distinção entre paz e guerra torna-se nebulosa. Vive-se uma espécie de “conflito permanente de baixa intensidade”, no qual países se enfrentam continuamente em múltiplas frentes — econômica, tecnológica, informacional — sem declarar formalmente hostilidades. A guerra deixa de ser um evento e passa a ser um estado.
Essa transformação também impõe desafios às democracias. Sociedades abertas, baseadas na liberdade de expressão, tornam-se mais vulneráveis à manipulação informacional. O pluralismo, que é virtude, pode ser explorado como fragilidade. Como proteger o debate público sem comprometer os valores que o sustentam? Essa é uma das grandes questões do nosso tempo.
Por outro lado, regimes autoritários, ao controlarem rigidamente a informação, podem reagir com mais rapidez no campo narrativo, mas pagam o preço de restringir liberdades. O equilíbrio entre segurança e democracia torna-se, assim, um dilema central.
A guerra moderna, portanto, não elimina os exércitos, mas os reposiciona. Eles continuam essenciais, mas já não são suficientes. A vitória depende da integração entre força militar, inteligência estratégica e capacidade de comunicação. Quem vence não é apenas quem ocupa o terreno, mas quem define o sentido do conflito.
No fundo, estamos diante de uma mudança de paradigma. A guerra saiu das trincheiras e entrou nas redes. Tornou-se menos visível, porém mais abrangente. E, talvez por isso mesmo, mais perigosa. Porque, quando não percebemos que estamos em guerra, já podemos estar perdendo-a.
GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político












