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As fortunas do infortúnio: guerra, energia e os incentivos invisíveis – por Foch Simão

A história raramente é neutra em relação à guerra. Conflitos destroem na superfície, mas, em profundidade, reorganizam riqueza, poder e influência. Durante as Guerras Napoleônicas, a família Rothschild não criou o conflito, mas soube operar dentro dele com uma eficiência que redefiniu seu alcance financeiro. No século XX, a ascensão de estruturas industriais e financeiras associadas a nomes como John D. Rockefeller e J. P. Morgan ocorreu em paralelo à reconfiguração econômica provocada pela Primeira Guerra Mundial e pela Segunda Guerra Mundial. A lição não é conspiratória é estrutural. As guerras são, entre outras coisas, eventos de concentração de riqueza.

No presente, o epicentro dessa lógica volta a se deslocar para o Golfo. O Estreito de Ormuz permanece como uma das artérias mais sensíveis do sistema energético global. Durante décadas, essa vulnerabilidade funcionou como freio estratégico para os Estados Unidos, mas esse freio enfraqueceu. Com a revolução do xisto, o avanço tecnológico que permitiu aos Estados Unidos extrair petróleo e gás natural de forma massiva de rochas sedimentares profundas, os Estados Unidos reduziram drasticamente sua dependência do petróleo do Oriente Médio. O que antes era um risco direto tornou-se, em grande medida, um problema dos outros, sobretudo da Europa e da Ásia. E quando o risco deixa de ser existencial, ele passa a ser administrável. É nesse ponto que a análise se torna desconfortável.

Tensões envolvendo o Irã não produzem apenas incerteza, produzem efeitos economicamente previsíveis. O preço do petróleo sobe. Cadeias produtivas globais se tensionam. Capitais buscam proteção. E, sobretudo, determinados setores entram em regime de expansão acelerada, como os de energia, defesa e tecnologia estratégica. Para uma economia que hoje exporta energia, domina cadeias de defesa e lidera infraestrutura tecnológica, esses efeitos não são neutros, eles são, em parte, favoráveis. Isso não implica que guerras sejam planejadas como operações financeiras, mas implica algo talvez mais relevante, que o sistema está estruturado de modo que certos atores ganham quando a instabilidade aumenta e isso altera incentivos.

Outrossim, a invasão israelense do sul do Líbano também atende à dois propósitos estratégicos um é neutralizar o Hezbollah, eliminando uma ameaça recorrente. O outro objetivo, com o domínio da região é a exploração dos recursos petrolíferos do mar libanês. Na região de Tiro, no sul do Líbano, estão localizadas, principalmente na plataforma continental (offshore), reservas significativas de hidrocarbonetos. Embora a cidade seja famosa por sua história milenar, hoje ela é um ponto estratégico nas discussões sobre a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) libanesa e suas reservas de hidrocarbonetos (gás e petróleo). O domínio econômico da região possibilitará ao país sionista se transformar em um dos exportadores de recursos petrolíferos mais próximo à Europa.

Quando os custos de uma crise são distribuídos globalmente, mas seus benefícios são capturados de forma concentrada, a linha entre contenção e tolerância à escalada torna-se mais tênue. A decisão não é mais apenas a de “evitar o conflito”, mas avaliar até que ponto a instabilidade pode ser absorvida, ou até explorada.

A independência relativa em relação ao Estreito de Ormuz não elimina os riscos para os Estados Unidos, mas reduz sua urgência. E, ao fazer isso, amplia o espaço para posturas mais assertivas ou, no limite, para uma maior tolerância ao agravamento das tensões. A guerra contemporânea, afinal, não começa quando os mísseis são lançados, ela começa quando os incentivos deixam de apontar claramente para a paz. E é talvez nesse deslocamento silencioso, mais do que em qualquer decisão explícita, que reside o verdadeiro perigo. Porque, como a história já demonstrou, quando o infortúnio coletivo se torna economicamente administrável para alguns, ele deixa de ser um limite absoluto e passa a ser, perigosamente, uma variável estratégica.

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