Home / Cultura / Eu sou o Brasil. O de verdade, não o de mentirinha! – por Guilherme Arantes

Eu sou o Brasil. O de verdade, não o de mentirinha! – por Guilherme Arantes

Eu vivi a minha vida pegando o mesmo busão às 4 da manhã. CMTC. Largo da Concórdia. Não fui criado para ser burguês. Nunca ganhei carro, não tive calça Levis. Calça de tergal e camisa volta ao mundo, japona de lã da 25 de Março, se quer saber.

Enfrentei toda a truculência de uma família que não aceitava o filho “artista-vagabundo”.

Meu pai, meu maior exemplo na vida, se formou médico em 1º lugar na Pinheiros, com um esforço descomunal, dando aulas em cursinhos pra comprar os livros de Medicina.

Quantas vezes eu vi meu pai sofrendo, em casa, e até chorando por causa de paciente mendigo e ladrão, que ele, cirurgião, operava nos plantões do Hospital Municipal.

Papai, quando criança, Dr. Gelson Arantes Lima teve até que entregar marmita e engraxar sapatos quando minha avó ficou viuva com 4 filhos para criar, em uma condição de muitas dificuldades.

Eu sei a minha origem.

Cromossomos de luta e de vergonha-na-cara.

Minha mãe pegava o bonde para ir trabalhar como bibliotecária na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo.

Fui criado na régua mais severa. Estudei em escolas estaduais, no Alberto Conte, no Vocacional do Brooklyn e no Roosevelt, da Liberdade.

Não tive carro, lutei contra tudo e contra todos. Sentei no humilde banco dos calouros das gravadoras, me recusei a cantar em inglês, ouvi um monte de “groselha” para ser cantor de auditório no Silvio Santos, fiz o Show de Calouros usando um terno de veludo azul da Ducal e sapato Vulcabrás, uma gravata borboleta que eu mesmo fiz, e até a notinha de prata que eu uso até hoje, e que eu mesmo fiz porque sou artesão com genética labrega.

Basta conferir o meu vídeo de Meu Mundo e Nada Mais…

Enfrentei o Pedro de Lara, o Zé Fernandes e a Aracy de Almeida, enfrentei a guilhotina do Flavio Cavalcanti, enfrentei o Censor José Vieira Madeira, e a tal Dona Solange, cara a cara, pra liberar o carimbo de execuçäo pública.

Toquei no Barros de Alencar, no Bolinha, no Alfredo Borba, no Darcio Campos, no Ayrton e Lolita Rodrigues, na Hebe, no Raul Gil, no Chacrinha, nos auditórios… Por total amor ao povo simples brasileiro.

Não fui mimado-abençoado da elite-oligárquica cultural. Não tive pai me incentivando, e nem poetas para me darem colo. Eu sou o operário da MPB que ralou e comeu o pão que o diabo amassou quando a censura e o AI-5 desceram a lenha e acabaram com os festivais e musicais na TV.

Fui chamado de brega e cafona, fui sacaneado décadas a fio pela Inteligentzia lacradora porque não nasci carioca, e não pertenci a movimentos, nem patotas, pra me protegerem.

Fui eu, fomos nós, caipiras e provincianos, latino-americanos sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, e vindos do interior, que inventamos o Brasil depois do dilúvio e da Era Glacial do AI-5 que expulsou e tentou calar os nossos ídolos no Exílio. Fomos nós que pegamos o rabo-de-foguete.

Toquei por amor, sem cachê, com Jorge Mautner, TomZé, Walter Franco.

Carreguei muito órgão, piano elétrico e amplificador, estourei minha coluna.

Tive que me inventar da estaca zero. Quando lancei minha primeira música, eu trabalhava na Secretaria de Bem Estar Social, concursado por exame para estagiário, ganhando salário-mínimo, consertando encanamento de creches lotadas de bebês pobres, em Itaquera, São Miguel e Guaianases.

Comprei, finalmente, o meu fusquinha só em 76, há exatos 50 anos atrás, com o meus primeiros parcos dinheirinhos da SICAM, que eu ia buscar no Largo do Paissandu.

Mas a minha vida sempre foi assim mesmo…

Continuo do mesmo jeito. A gente se vira nos 30. Desenhista, marceneiro, afinador, lustrador, eletricista, pedreiro, cozinheiro, pra correnteza não levar a imaginação é fértil.

Eu sou o Guilherme Arantes do povão, do Prato-Feito, do Largo Treze, da Santa Ifigênia.

E vou ser sempre com cabeça erguida.

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