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Se a diversidade depender só de multinacional, ela sempre será vulnerável – por Aline Torres

A crise atual evidencia uma pergunta incômoda: o compromisso empresarial com diversidade resiste quando deixa de ser lucrativo?

A queda de 60% no investimento de multinacionais na Parada LGBT+ da Avenida Paulista acende um alerta importante sobre a dependência excessiva de grandes patrocinadores privados para sustentar eventos culturais e de diversidade no Brasil. Quando mudanças no ambiente político internacional passam a impactar diretamente decisões de marcas globais, precisamos discutir alternativas mais sustentáveis, e principalmente mais honestas, sobre o compromisso das empresas com inclusão, direitos humanos e diversidade.

Nos últimos anos, o discurso corporativo em torno da diversidade virou ativo de reputação. Empresas disputaram espaço em campanhas publicitárias, coloriram logotipos durante o mês do orgulho LGBTQIA+ e passaram a associar suas marcas a valores progressistas. Mas a retração repentina de investimentos em ações de diversidade mostra que, para muitas delas, inclusão nunca foi política estrutural: era estratégia de marketing.

O problema é mais profundo do que o cancelamento de patrocínios. Dentro das empresas brasileiras, departamentos de ESG e diversidade frequentemente operam sem orçamento próprio, sem autonomia e, principalmente, sem poder real de decisão. Em muitos casos, esses setores existem apenas para responder a demandas externas de imagem, relatórios internacionais ou pressão de investidores, mas não participam das decisões centrais de negócios.

Esse cenário reforça também a importância do investimento público na cultura e nas pautas de diversidade. Durante minha gestão na Secretaria de Cultura, fortalecemos o apoio às paradas LGBT+ das periferias por meio de recursos públicos, entendendo esses eventos não apenas como celebrações, mas como instrumentos de cidadania, pertencimento e movimentação econômica local. Foi uma forma de descentralizar investimentos culturais e reduzir a dependência exclusiva de grandes patrocinadores privados.

A crise atual mostra que, quando a diversidade depende apenas do humor do mercado ou da pressão política internacional, ela se torna frágil. O verdadeiro compromisso com inclusão precisa estar na estrutura das empresas e também nas políticas públicas, com financiamento contínuo, participação social e compromisso que sobreviva às mudanças de cenário político e econômico.

Talvez a saída para este momento esteja justamente em algo que aprendemos nos últimos anos: descentralizar não é enfraquecer. É multiplicar.

Aline Torres foi Secretária Municipal de Cultura em São Paulo até 2024

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