Um famoso mito da tradição grega, destinado a explicar a origem dos males do mundo, conta que Zeus, rei dos deuses, entregou a Pandora, a primeira mulher, uma caixa, advertindo-a de que jamais a abrisse. Vencida pela curiosidade, ela rompeu a interdição, libertando sobre a humanidade as doenças, os vícios, as desgraças e a própria morte.
No Brasil, embora há muito vicejassem males dignos da antiga caixa de Pandora, um deles não se apresentava como traço endêmico: o ódio. A patifaria de assassinar reputações; a vilania de lançar grupos uns contra os outros em um país marcado pela profunda mestiçagem; a canalhice de insuflar antagonismos entre pobres e ricos numa nação majoritariamente composta por remediados, tudo isso mobilizado com o propósito da conquista do poder político e, por consequência, da rapinagem econômica, transformou um país de índole pacífica em território de conflagração ideológica. Nesta barafunda social emergem as malditas filhas de Taumante, as hárpias da vida pública, colhendo os frutos envenenados da própria desagregação brasileira.
Em um país de gente humilde, de parca formação educacional e de vasto contingente de analfabetos funcionais, a dissonância cognitiva floresce, instilando um ódio que divide famílias, rompe amizades e inflama os ambientes sociais. Tomadas por um fanatismo ideológico rudimentar, essas bestas sinistras espalham a cólera e a sordidez, aprofundando as fissuras que fragmentam a nação. O mais trágico, contudo, reside no fato de que tal decadência não surgiu espontaneamente das entranhas da sociedade brasileira. Ela foi sendo lentamente cultivada por uma visão ideológica importada, alheia à formação histórica, cultural e espiritual do país. Uma ideologia estranha ao caráter conciliador do povo brasileiro, introduzida gradativamente nos meios de comunicação, nos centros universitários, nas manifestações culturais e nos aparelhos burocráticos do Estado.
Sob o disfarce de modernidade, consciência social ou progresso moral, disseminou-se uma narrativa fundada não na construção nacional, mas na desconstrução sistemática de todos os referenciais capazes de sustentar a coesão de um povo. A família foi ridicularizada; a religião, hostilizada; o mérito, tratado como opressão; o patriotismo, reduzido a caricatura; e a própria identidade nacional passou a ser percebida como algo vergonhoso ou suspeito.
Criou-se, assim, uma intelectualidade narcísica, desconectada da realidade concreta do povo, mas profundamente influente nos mecanismos de formação cultural. Uma casta que, tomada por um egocentrismo intelectual desmedido, passou a enxergar o Brasil não como uma civilização própria em potencial, mas como um organismo a ser permanentemente culpabilizado, dividido, enfraquecido e pior, usurpado.
Enquanto outras nações consolidavam projetos estratégicos de desenvolvimento, protegendo suas riquezas, fortalecendo sua soberania e cultivando o sentimento nacional, o Brasil mergulhava numa permanente guerra psicológica contra si mesmo. E isso em um país que reúne algumas das maiores reservas minerais do planeta; vastidão hídrica incomparável; território agricultável monumental; matriz energética privilegiada; posição geopolítica estratégica; além de um povo miscigenado, adaptável, criativo e extraordinariamente resiliente.
Poucas nações no mundo possuem, simultaneamente, tantos recursos naturais e tamanho potencial humano. Ainda assim, o Brasil parece caminhar em sentido inverso ao de sua própria vocação histórica. A degradação institucional, a mediocrização do debate público, a destruição do ensino, a vulgarização cultural e o incentivo permanente ao ressentimento coletivo operam como instrumentos de uma engenharia social corrosiva, cuja consequência inevitável é a inviabilização do próprio conceito de nação.
O resultado é uma sociedade emocionalmente exausta, espiritualmente fragmentada e intelectualmente confusa, incapaz de distinguir liberdade de licenciosidade, justiça de vingança ideológica, ou civilização de barbárie.
Como na antiga narrativa grega, a caixa foi aberta. E dela escaparam não apenas os velhos males humanos, mas também a intoxicação moral de uma época em que o ódio político substituiu o diálogo, a propaganda ocupou o lugar da verdade e a destruição passou a ser celebrada como virtude revolucionária. Resta apenas a esperança estoica da brava gente brasileira, último elemento preservado na alma nacional, de que o povo volte a reconhecer a si próprio, reencontre suas raízes civilizacionais e compreenda que nenhuma nação sobrevive quando aprende a odiar a própria identidade.












