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A ideologia tomou conta do Brasil – por Ricardo Cavalcanti

O Brasil aproxima-se de mais uma eleição presidencial em um ambiente marcado pela polarização. O debate político, que deveria privilegiar programas de governo, competência administrativa e soluções para os problemas nacionais, tem sido cada vez mais substituído por disputas ideológicas. Em muitos momentos, a escolha do eleitor parece decorrer menos da avaliação do candidato e mais da corrente política que ele representa.

As ideologias são parte essencial da democracia. Elas organizam ideias, orientam partidos e permitem ao cidadão identificar diferentes projetos de sociedade. O problema começa quando deixam de ser um instrumento para compreender a realidade e passam a determinar a própria realidade, tornando-se incapazes de admitir o contraditório ou reconhecer méritos no adversário.

O cientista político italiano Norberto Bobbio afirmava que a democracia não vive da unanimidade, mas da convivência entre opiniões divergentes. Quando essa convivência desaparece, abre-se espaço para a radicalização e para o empobrecimento do debate público.

O pensador francês Alexis de Tocqueville, ao estudar as democracias modernas, advertiu que elas somente permanecem fortes quando seus cidadãos preservam o espírito crítico e participam da vida pública com responsabilidade. A democracia não se resume ao voto; ela exige tolerância, respeito às instituições e disposição para ouvir quem pensa diferente.

Já o filósofo espanhol José Ortega y Gasset alertava que a sociedade entra em crise quando as paixões coletivas substituem a razão. Essa reflexão parece particularmente atual. Nas redes sociais, nos meios de comunicação e até nas conversas familiares, cresce a dificuldade de separar a crítica política da hostilidade pessoal. Divergir tornou-se, muitas vezes, motivo para romper amizades e dividir famílias.

O filósofo Karl Popper ensinou que nenhuma ideia deve estar imune à crítica. A liberdade de questionar é justamente o que diferencia uma sociedade aberta de uma sociedade dominada por dogmas. Quando uma ideologia passa a explicar tudo e a justificar qualquer comportamento, deixa de servir à democracia e passa a ameaçá-la.

As próximas eleições representarão mais um teste para a maturidade política do país. O eleitor será chamado não apenas a escolher um presidente, mas também a decidir que tipo de democracia deseja fortalecer. Será uma oportunidade para avaliar caráter, preparo, experiência, capacidade de diálogo e compromisso com o interesse público, em vez de apenas repetir fidelidades ideológicas.

O Brasil enfrenta problemas concretos: crescimento econômico insuficiente, educação de baixa qualidade, violência, corrupção, insegurança jurídica, desigualdades regionais e dificuldades para aumentar a produtividade. Nenhum desses desafios será resolvido por discursos inflamados ou por slogans partidários. Exigem competência administrativa, planejamento, responsabilidade fiscal e capacidade de construir consensos.

Como lembrava Montesquieu, “para que não se possa abusar do poder, é preciso que o poder limite o poder”. Da mesma forma, nenhuma ideologia deve prevalecer sobre a Constituição, sobre as instituições democráticas e sobre os interesses permanentes da Nação.

O verdadeiro estadista não é aquele que alimenta divisões para conquistar votos, mas aquele que consegue unir a sociedade em torno de objetivos comuns. O Brasil precisa de menos paixão ideológica e mais espírito público; menos radicalização e mais diálogo; menos culto às bandeiras partidárias e mais compromisso com os brasileiros.

As eleições passam. Os governos passam. As ideologias evoluem e, muitas vezes, se transformam com o tempo. O Brasil, porém, permanece. É nele — e não nas paixões do momento — que deve estar concentrada a responsabilidade de quem governa e a consciência de quem vota.

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