À medida que o Brasil se aproxima de mais um processo eleitoral, uma constatação preocupa qualquer observador da vida pública: tornou-se cada vez mais difícil discutir política com serenidade. O debate de ideias, indispensável à democracia, foi sendo substituído pela polarização, pela desconfiança e, muitas vezes, pela hostilidade.
Não importa o assunto. Bastam alguns minutos de conversa para que argumentos sejam trocados por rótulos, fatos cedam espaço a convicções inabaláveis e opiniões divergentes sejam interpretadas como ofensas pessoais. Em vez da busca pela verdade, prevalece o desejo de vencer a discussão.
A filósofa Hannah Arendt afirmava que a política existe porque os seres humanos são diferentes e precisam encontrar formas de conviver. Quando o diálogo desaparece, a própria essência da vida democrática fica ameaçada. A democracia não exige unanimidade; exige respeito às diferenças.
O jurista e cientista político Norberto Bobbio lembrava que a democracia é, acima de tudo, um conjunto de regras para administrar conflitos pacificamente. Quando essas regras deixam de ser respeitadas, abre-se espaço para a intolerância e para o enfraquecimento das instituições.
O Brasil vive um momento em que muitos já não escolhem candidatos apenas por suas propostas, mas por identidade ideológica. Em alguns casos, o voto deixa de ser um julgamento sobre competência, experiência e capacidade administrativa para transformar-se em uma demonstração de pertencimento a um grupo. A consequência é que o candidato passa a ser defendido ou rejeitado independentemente de seus acertos ou erros.
Essa realidade foi potencializada pelas redes sociais. Os algoritmos aproximam pessoas que pensam da mesma forma e afastam o contraditório. Criam-se bolhas de opinião nas quais o diferente deixa de ser um interlocutor e passa a ser tratado como adversário permanente. A política transforma-se em torcida organizada.
Karl Popper, ao formular o paradoxo da tolerância, advertia que uma sociedade livre precisa proteger o debate racional e impedir que a intolerância destrua a própria liberdade. Essa reflexão continua extremamente atual. Democracias não morrem apenas por golpes; elas também podem se deteriorar quando desaparecem o respeito, a moderação e a disposição para ouvir.
A célebre frase atribuída a Voltaire resume um princípio indispensável à convivência democrática: defender o direito de alguém expressar uma opinião, mesmo quando dela discordamos profundamente. Sem liberdade de expressão e respeito ao contraditório, a democracia perde sua essência.
No Brasil, até amizades e relações familiares têm sido abaladas pela política. Pessoas deixam de conversar, rompem laços e passam a enxergar no outro não um cidadão com ideias diferentes, mas um inimigo. Esse ambiente de permanente confronto empobrece o debate público e dificulta a construção de soluções para os problemas nacionais.
Rui Barbosa ensinava que “a pior democracia é preferível à melhor ditadura”, lembrando que somente a liberdade permite corrigir erros sem violência. Já Ulysses Guimarães, ao promulgar a Constituição de 1988, afirmou que “a persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia”. Ambas as lições permanecem atuais: instituições fortes dependem de cidadãos dispostos a dialogar.
As eleições deveriam representar um momento de comparação entre projetos, avaliação de resultados e discussão de propostas para o futuro. Infelizmente, em muitos casos, transformam-se em disputas marcadas pela emoção, pela radicalização e pela incapacidade de reconhecer méritos no adversário.
O Brasil precisa recuperar a cultura do diálogo. Divergir faz parte da democracia; hostilizar quem pensa diferente, não. Um país se fortalece quando seus cidadãos discutem ideias com liberdade, respeito e responsabilidade.
Que as próximas eleições sejam uma oportunidade para substituir o fanatismo.











