Muita gente se pergunta de onde brota tanto ódio na política atual. A resposta é simples. As pessoas não estão mais interessadas em política. Pode parecer contraditório, mas esse é o fato. Ao largar mão de pensar e agir politicamente, o cidadão dispensa em si mesmo a capacidade de lutar individual ou coletivamente. É nesse hiato de esperança que aparecem os “salvadores da pátria” com propostas tão milagrosas quanto irrealizáveis.
Alguns analistas insistem que as redes sociais mudaram o comportamento humano e que estamos mais fechados em nossos próprias ideias do que dispostos ao diálogo. Isso, na prática, nunca foi diferente. A imprensa na virada do século XIX para o XX era um panfleto só. Os princípios republicanos, positivistas ou não, alcançavam um grau de unanimidade onde pensar diferente significava perseguição, ostracismo ou simplesmente a opção pelo isolamento.
No decorrer do século XX até meados dos anos 1970, vivemos entre trancos e barrancos, mas a humanidade avançou. A Revolução Industrial, em sua terceira geração, proporcionou conquistas inéditas graças ao desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da medicina, de um lado, e da superação dos conflitos armados devastadores com a incipiente, porém constante construção de processos mais democráticos.
As ditaduras que vivemos entre 1950 e 1990, especialmente na América Latina, foram pontos fora da curva para atender necessidades imediatas das castas que se apropriaram do capitalismo, tornando-o selvagem em alguns países a ponto de favorecer rupturas que, com o passar do tempo, mostraram seus resultados negativos. Economias estagnaram em algumas regiões do mundo, enquanto os chamados países centrais conseguiram estabelecer um padrão de vida mais sólido e confortável aos seus habitantes.
Na essência, a evolução do capitalismo industrial levou ao capitalismo de quarta geração, que é a financeirização do sistema atrelado ao padrão dólar e a uma desenfreada corrida tecnológica onde o ser humano se pergunta onde ele mesmo caberá nesse mundo.
Para os países que alcançaram algum grau de autonomia econômica com o desenvolvimento das suas bases produtivas, a tecnologia é um passo a mais nessa escalada. Para as nações que ficaram na condição do meio, servindo como pontos de exportação de matérias primas e algum grau de qualificação industrial, o sistema financeiro serviu como uma espécie de condenação perpétua. Exporta matéria prima para outro país mais avançado que terá condição de agregar valor e retornar sua produção ao país de origem estabelecendo um círculo viciado de dominação.
Na medida que essas nações menos incorporadas ao sistema-mundo atual não encontram saídas à sua condição de submissão econômica, a chance de aparecerem “salvadores da pátria” é enorme, especialmente porque os problemas sociais se agravam e a esperança se transforma em artigo raro. Qualquer proposta que venha com um discurso mais duro para enfrentar a criminalidade e que prometa condições para o progresso individual terá mais chances de sucesso do que qualquer racionalidade política que realmente tenha um bom diagnóstico e soluções viáveis.
O problema é que não há mais tempo para “mimimi”. A inversão da ordem está feita. Os “antissistema” são aqueles que odeiam qualquer institucionalidade em nome de uma liberdade de expressão desrespeitosa com a própria noção de liberdade. São tempos propensos à ira, ao desencanto e ao conflito contra tudo e contra todos. Uma nova era hobbesiana e um Proudhon às avessas.
As redes sociais não passam de espelho das redes da vida, aquelas cruéis e violentas que encontramos todos os dias nas ruas, nas casas, em todo canto. Não precisamos mais do sensacionalismo dos programas de TV e rádio. Nós mesmos somos os protagonistas da notícia.
E é nessa esfera de emoções humanas à flor da pele que emergem os monstros da extrema-direita com suas ideias racistas, homofóbicas, excludentes e na base do tudo ou nada. O condão da civilidade se rompeu há anos e quem sabe os verdadeiros cidadãos de bem não perceberam. Afinal, a fera sempre esteve ali com sua fúria enclausurada.
Marco Piva é jornalista e editor-chefe do canal de Youtube China Global News.