Um fenômeno preocupante avança nas cidades brasileiras, mas ainda como uma espécie de inimigo quase invisível. Pequenas e médias farmácias e mercadinhos estão fechando as portas em silêncio, refletindo não um movimento isolado, mas uma crise estrutural sem precedentes no varejo nacional.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do IBGE, o varejo nacional registrou alta de 1,6% em 2025. O dado, à primeira vista apenas tímido, esconde uma divergência mortal. Enquanto grandes redes ampliam participação, pequenos e médios estabelecimentos perdem fôlego.
Acostumado a ser um dos extratos mais resilientes do varejo, o mercado farmacêutico escancara essa realidade desigual. Segundo indicadores da Close-Up International, o segmento sustenta crescimento acima de 12%. Em contrapartida, o número de farmácias inauguradas no Brasil despencou 39,3% no intervalo de quatro anos. Enquanto 2022 registrou 11,1 mil novas unidades, o número não passou de 6,7 mil em 2025.
Para completar, 9,8 mil lojas encerraram operações, total que ultrapassou pela primeira vez o índice de pontos de venda abertos. Na prática, isso significa que aproximadamente 14 farmácias foram descontinuadas para cada 100 inauguradas em 12 meses.
As pequenas e médias redes estão entre as mais afetadas. Em quatro anos, esse grupo reduziu sua presença de 7.537 para 6.551 unidades, uma queda de 22,6%. Já as farmácias independentes fecharam com saldo negativo de 1.567 unidades, mesmo mantendo mais de 56 mil lojas em operação.
O setor cresce, mas não para todos. A lógica é conhecida. Grandes grupos operam com escala, maior poder de negociação com fornecedores, investimento em tecnologia e campanhas massivas de marketing. Já o pequeno e médio varejista enfrenta aluguel alto, carga tributária complexa, crédito restrito e margens cada vez mais comprimidas. Some-se a isso a mudança no comportamento do consumidor, cada vez mais digital e sensível a preço, e o resultado é um ambiente hostil para quem não consegue acompanhar o ritmo.
Mas o fechamento dessas lojas vai além da matemática financeira. Quando uma farmácia independente encerra suas atividades, o bairro perde atendimento personalizado, reduz vínculo com a comunidade e dizima empregos. Quando um mercadinho fecha, a comunidade perde conveniência e circulação econômica. A substituição por grandes redes pode garantir oferta, mas nem sempre preserva o mesmo impacto social.
É justamente aí que está o ponto central. Competir apenas por preço é uma batalha quase perdida para o pequeno e médio varejo. A saída passa por estratégia. Marketing e Comunicação não são luxo, e sim ferramentas de sobrevivência. O varejista precisa assumir seu diferencial de proximidade, confiança e agilidade.
Programas simples de fidelização, presença ativa nas redes sociais do bairro, campanhas direcionadas via WhatsApp e parcerias com fornecedores para ações locais podem fortalecer o relacionamento com o cliente. Além disso, investir em tecnologia deixou de ser opcional. Oferecer venda online com retirada na loja ou entrega rápida no entorno amplia conveniência sem exigir a estrutura de uma grande rede.
Sistemas de gestão mais eficientes reduzem perdas e melhoram controle de estoque. E nada disso funciona sem treinamento. Equipes capacitadas em atendimento consultivo e uso de ferramentas digitais transformam a experiência do consumidor em algo que grandes redes, muitas vezes padronizadas, não conseguem replicar.
Também é hora de abandonar o isolamento. O associativismo surge como alternativa concreta, além de franquias e licenciamentos de marca. Ao integrar centrais de compra e redes cooperadas, o pequeno e médio varejista ganha em escala e acesso a informações de mercado, melhora em negociação e no mix de produtos, negocia melhor com fornecedores e organiza a logística, além de compartilhar inteligência de mercado. Isso reduz custos, aumenta competitividade e diminui decisões baseadas apenas na intuição. Sozinho, o pequeno e médio varejista sofre. Em rede, ele ganha musculatura.
A desigualdade estrutural é evidente. Grandes redes podem faturar mais de R$ 700 mil por mês por loja, enquanto independentes giram em torno de R$ 65 mil. Com margens apertadas, qualquer queda no consumo pesa mais para quem atua sozinho.
A crise existe e os números confirmam. Mas não se trata apenas de retração econômica. O varejo só sobreviverá se entender que sua força não está no tamanho, e sim na capacidade de criar vínculo, inovar na gestão e profissionalizar sua operação. Caso contrário, continuaremos assistindo, em silêncio, ao apagamento gradual de negócios que passaram de pai para filho e que sempre foram parte essencial da dinâmica socioeconômica que move nosso país.
*Paulo Costa é CEO da Éden Grupo e consultor especializado no varejo, com MBA em gestão comercial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pela Fundação Dom Cabral, e pós-graduado em Comportamento no Século XXI pela FAAP.












