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O ritmo das mudanças: A bússola que os jovens precisam hoje – por Elizabeth Leão 

Olho para o mundo ao meu redor e compreendo quem se assusta com o compasso acelerado dos nossos dias. Assusta-me, também, a sensação de desorganização global, alimentada pelo excesso de informação e ruídos incessantes. Parece que a sociedade perdeu o seu eixo definitivo.  

Vivemos em um ritmo que muitas vezes se assemelha ao staccato: notas curtas, isoladas, destacadas de forma abrupta, sem uma ligação harmônica entre si.  

Como juíza aposentada, passei grande parte da minha vida analisando conflitos complexos, aplicando as normas legais, sempre buscando reestabelecer o equilíbrio social. Como musicista, sei perfeitamente que uma sequência de notas erradas, desarticuladas e fora do tempo pode soar como puro caos para ouvidos desatentos.  

No entanto, a maturidade me concedeu um privilégio valioso: o de enxergar além do barulho imediato. Quem já viu o mundo mudar de formato tantas vezes aprende, acima de tudo, a não temer o movimento, por mais desafiante que ele se demonstre. 

Toda grande transição histórica guarda em si o desconforto inevitável da incerteza. Permanecem nítidas, na minha memória, as grandes rupturas jurídicas, as profundas transformações nos costumes e as sucessivas revoluções tecnológicas, sempre desafiantes e que se descortinaram aos nossos olhos, principalmente ao longo das últimas décadas. Em cada um desses momentos de transição, o veredito inicial dos pessimistas de plantão era exatamente o mesmo: “o mundo está perdido e sem rumo”

Contudo, a história, que funciona como a grande julgadora do tempo, sempre desmente essa preocupante premissa. A verdade dos fatos é que a humanidade não está se perdendo; ela está  apenas vivenciando o processo doloroso, complexo e necessário de sua própria afinação. O caos atual nada mais é do que o som da imensa orquestra social ajustando seus instrumentos antes de iniciar um novo movimento sinfônico. Há uma ordem implícita que se gesta no próprio coração da aparente desordem. 

Essa clareza se materializa de forma muito nítida quando observo meus netos, os jovens deste tempo. Observo neles uma velocidade impressionante de raciocínio, uma familiaridade nativa com o futuro digital e uma energia vibrante que desafia as velhas estruturas. Com certeza, estão herdando um mundo inegavelmente complexo, repleto de desafios inéditos, mas possuem a força biológica e intelectual necessária para habitá-lo e transformá-lo.  

O que às vezes lhes falta não é talento ou capacidade, mas o tempo natural de maturação e de paciência. Diante de todos esses desafios, percebo que o meu papel como mãe e avó — e o  papel da nossa geração de mentes maduras e experientes — não  é o de temer ou criticar a modernidade com amargura, ou mesmo  nos isolarmos em uma nostalgia estéril.  

Nosso dever é atuar como mediadores deste novo tempo. 

Nossa verdadeira missão é servir como o ponto de equilíbrio e ancoragem nesta partitura contemporânea.  

Na música, o contraponto nos ensina que duas ou mais linhas melódicas independentes podem soar simultaneamente de forma absolutamente bela, desde que respeitem certas regras de harmonia. Se os jovens trazem o andamento acelerado, o dinamismo e a melodia inovadora, nós detemos a harmonia de sustentação, a estrutura técnica e os sons graves que dão peso, profundidade e estabilidade à grande composição da vida. Eles possuem o motor da velocidade; nós possuímos a bússola moral e a sólida jurisprudência da experiência vivida.  

O otimismo que defendo e pratico não é uma espera ingênua ou passiva por dias melhores, mas a atitude deliberada e ativa de  estender a mão e abrir canais de diálogo com as novas gerações. 

Assim, como no direito respeitamos o devido processo legal para garantir a justiça, precisamos respeitar o devido processo de  amadurecimento humano. Ao atuarmos como mentores afetuosos, oferecemos aos mais jovens o que há de mais perene na nossa bagagem: as cláusulas pétreas da dignidade humana, do respeito  mútuo, da ética e da resiliência diante das adversidades.  

A desorganização do presente não é um ponto final, mas um interlúdio necessário para um arranjo social mais inclusivo e consciente. 

Não há, portanto, qualquer motivo para o desespero. O mundo vai encontrar o seu novo eixo de equilíbrio, pois a vida sempre busca o fluxo constante da ordem, do entendimento e do amor.  

Quando unimos a energia audaciosa, curiosa e ágil da juventude com a sabedoria serena, firme e acolhedora da maturidade, conseguimos o milagre de transformar o ruído confuso do presente em uma música rica, harmoniosa, sofisticada e cheia de esperança.  

O amanhã nos espera de braços abertos, e se soubermos reger essa transição com generosidade e afeto, ele tem absolutamente tudo para ser extraordinário. 

Eu confio. 

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