Home / Saúde / A Síndrome de Stendhal existe mesmo? – por Rafael Murió

A Síndrome de Stendhal existe mesmo? – por Rafael Murió

Imagine que você está caminhando por uma das cidades mais bonitas do mundo. Você entra em um museu clássico, cercado por séculos de história e genialidade. De repente, seus olhos focam em uma pintura ou em uma escultura famosa. Em vez de apenas admirar a obra, seu coração começa a acelerar sem motivo. Suas mãos ficam suadas, as pernas tremem e uma tontura forte toma conta. O ar parece faltar nos pulmões e você sente que vai desmaiar ali mesmo.

​Não, isso não é um ataque cardíaco causado pela comida local, nem cansaço. Você pode estar sofrendo de um colapso físico provocado por pura beleza. ​Esse fenômeno estranho e fascinante tem nome: Síndrome de Stendhal. Ela também é conhecida por aí como a “overdose de beleza”. Trata-se de uma reação psicossomática, ou seja, quando o psicológico afeta o corpo.

​O nome vem de um famoso escritor francês do século dezenove, chamado Stendhal. Em 1817, ele visitou a belíssima Basílica de Santa Croce, em Florença. Ao sair de lá, ele relatou ter sentido uma mistura profunda de êxtase e pavor. ​Ele escreveu que seu coração batia forte e que sentia medo de cair.

Por mais de um século, essa história foi vista apenas como drama de artista. Tudo mudou no final dos anos 1970, graças a uma médica italiana. A psiquiatra Graziella Magherini trabalhava em um hospital central de Florença. Ela começou a notar um padrão muito estranho na emergência do hospital: dezenas de turistas chegavam lá com os mesmos sintomas misteriosos de ansiedade. Eles tinham tonturas, palpitações, ataques de pânico e, às vezes, alucinações. O detalhe comum: todos tinham acabado de visitar museus ou igrejas locais.

​Florença é o berço do Renascimento e respira arte em cada esquina. Magherini decidiu estudar o caso de mais de cem pacientes detalhadamente. Em 1989, ela lançou um livro batizando oficialmente a Síndrome de Stendhal. Mas como isso funciona na prática e o que acontece na nossa mente?

Os médicos explicam que tudo começa com uma forte sobrecarga sensorial. O turista viaja milhares de quilômetros alimentando uma enorme expectativa. Ele passa dias planejando ver aquela obra de arte específica de perto. ​Quando finalmente chega ao museu, o cérebro recebe estímulos demais de uma vez. ​São muitas cores, formas, história e emoção concentradas em um só lugar. Para piorar, o corpo do turista geralmente já está cansado da viagem física.

A combinação de cansaço, jet lag e expectativa cria o cenário perfeito. O cérebro entra em um estado de transe emocional diante do monumento. A pessoa se sente pequena e esmagada diante da grandiosidade da obra. O sistema nervoso reage liberando uma descarga massiva de adrenalina no sangue.

​É a mesma reação de quando estamos diante de um perigo real iminente. Só que, em vez de fugir de um predador, a pessoa está encarando uma tela. O coração dispara, a pressão arterial muda e a tontura forte aparece.

​Existem casos famosos e impressionantes registrados nos museus italianos. A Galeria Uffizi, em Florença, é o verdadeiro epicentro desse fenômeno. ​É lá que fica guardada a pintura “O Nascimento de Vênus”, de Botticelli. A imagem da deusa surgindo de uma concha mexe com o público há séculos.

Alguns anos atrás, um turista italiano sofreu um ataque cardíaco diante dela. Ele precisou ser reanimado pelos médicos com um desfibrilador no local. ​Outro jovem teve uma crise de epilepsia enquanto admirava a mesma Vênus. E não para por aí: há relatos de pessoas que começam a chorar compulsivamente. Outras simplesmente desabam no chão de mármore e ficam paralisadas temporariamente.

​A estátua de “Davi”, feita por Michelangelo, é outro gatilho muito comum. A perfeição dos detalhes da escultura em mármore choca os visitantes desavisados. Ver o tamanho e a imponência da obra de perto quebra as pernas de muitos. Alguns relatam sentir uma forte sensação de descolamento da realidade, o desmaio.

​Mas afinal de contas, essa síndrome existe mesmo como doença real?
​A resposta é complexa e divide a comunidade médica até os dias de hoje.

​Ela não está listada no manual oficial de transtornos mentais dos psiquiatras. ​Muitos médicos acham que ela é apenas um ataque de pânico comum contextualizado. Para eles, a culpa é do calor, da desidratação e das filas gigantescas. Caminhar o dia todo sob o sol europeu derruba a pressão de qualquer um.

​Por outro lado, psicólogos defendem que o fator cultural é sim o gatilho. A beleza e a história têm, comprovadamente, o poder de alterar nossa mente.

​Curiosamente, a síndrome não afeta todo mundo da mesma maneira. Os estudos da doutora Magherini mostraram que os italianos são imunes a ela. ​Como eles crescem cercados por arte barroca e renascentista, já estão acostumados. Os turistas asiáticos e americanos, por outro lado, são os mais afetados. Para eles, o choque cultural e estético de ver a história viva é gigantesco.

Se você está planejando viajar para a Europa, não precisa entrar em pânico. Existem formas simples de se proteger dessa “overdose de cultura” nos museus. A primeira regra de ouro é nunca visitar galerias com pressa ou correndo. Não tente ver todas as salas e quadros de um museu enorme no mesmo dia. Faça pausas regulares para descansar o corpo, beber água e respirar ar puro.

​Se sentir o coração acelerar, desvie o olhar da obra de arte imediatamente. Sente-se em um banco, feche os olhos e foque na sua respiração por minutos. ​Lembre-se de que a arte foi feita para ser digerida e apreciada aos poucos.

​A Síndrome de Stendhal nos mostra algo bonito sobre a nossa própria espécie. Ela prova que nós, seres humanos, somos criaturas profundamente sensíveis. Somos capazes de nos emocionar a ponto de o corpo físico colapsar de admiração.

No fim das contas, a síndrome pode não ser uma doença no sentido estrito. Ela é, na verdade, um tributo vivo ao poder avassalador da criatividade humana. Uma prova de que a grande arte nunca é apenas tinta sobre uma tela fria. Ela é viva, mexe com a nossa alma e, às vezes, até nos faz perder o chão.

Marcado:

Sign Up For Daily Newsletter

Stay updated with our weekly newsletter. Subscribe now to never miss an update!

[mc4wp_form]

Deixe um Comentário