Um dos maiores riscos para uma democracia não é a mentira aberta. É a verdade mal posicionada.
Chamo isso de “verdade errada”: quando se utiliza um argumento juridicamente correto para evitar enfrentar a dimensão ética e institucional do problema.
O recente episódio envolvendo discussão interna no Supremo Tribunal Federal expõe algo mais profundo que um debate técnico. Ele revela a tensão permanente entre legalidade e legitimidade — tema central para qualquer projeto de reconstrução institucional.
A legalidade é indispensável. Sem forma, não há Estado de Direito.
Mas a legitimidade é o que sustenta a autoridade moral das instituições.
Quando uma corte constitucional concentra sua defesa na regularidade formal de um procedimento, mas deixa de enfrentar com transparência a percepção de conflito de interesse ou suspeição, ela pode estar juridicamente protegida e simbolicamente fragilizada.
O problema não é a defesa da forma. O problema é a ausência da substância.
No projeto “Cidadão acima do Estado”, temos insistido que instituições são construções culturais antes de serem estruturas normativas. Cultura institucional se manifesta naquilo que não é obrigatório pela lei, mas é exigido pela consciência do cargo.
A pergunta decisiva não é apenas: “Foi ilegal investigar?”
Mas também: “A conduta preservou a confiança pública?”
Sem confiança, resta apenas poder.
O vazamento da reunião interna acrescenta outra camada preocupante. A quebra de confidencialidade é sintoma de erosão interna. Quando membros de uma instituição passam a agir movidos por disputas internas que extravasam os canais formais, a fragilidade deixa de ser apenas externa — ela torna-se estrutural.
Ainda não estamos diante de falência institucional. Mas estamos diante de um teste.
Instituições maduras reagem a crises elevando seu padrão de exigência interna. Instituições fragilizadas respondem com fechamento corporativo.
O futuro dependerá menos do episódio específico e mais da capacidade de reconhecer que autoridade judicial não se sustenta apenas na Constituição, mas na confiança daqueles em nome de quem ela é exercida.
A cidadania ativa não substitui instituições. Mas lembra constantemente que nenhuma delas está acima da exigência ética que legitima sua existência.












