O Brasil está atônito. Atônito e perplexo, como apreciava dizer velho jornalista, ao se ver diante do fato inusitado.
O tarifaço entrou em vigor no dia 6 deste mês, obedecendo determinação do presidente Donald Trump, exatamente dentro dos limites por ele fixados. Pequenas e médias empresas serão as mais prejudicadas. Como era de se esperar, muitas não dispõem de recursos financeiros para enfrentar os prejuízos provocados pela repentina interrupção das exportações. Grandes empresas talvez consigam suportar a crise, mas não indefinidamente.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não baixou o tom e se recusa a dialogar com Trump. Noticiam os jornais que irá propor ao Brics resposta conjunta contra o tarifaço. Por outro lado, teria dito que pensa convidá-lo para a 30ª. Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas – COP30, marcada para ocorrer entre os dias 10 e 21 de novembro, em Belém, ameaçada, porém, de não haver por falta de hotéis, e do preço abusivo cobrado por hoteleiros locais.
Levantamento apresentado pelo jornal O Estado (7/8, Pág.B4), informa que a tarifa sobre as importações afeta diretamente 906 municípios brasileiros. Pelo voluma das exportações, em 2024, o mais atingido será Piracicaba. Além dele, neste Estado, São Paulo, Guarulhos, Matão, Colina. No Pará, Barcarena; em Santa Catarina, Joinville e Jaraguá do Sul; em Minas Gerais, Guaxupé e Varginha.
Bastam esses dados para se concluir que o assunto não pode ser conduzido com leviandade. Até onde se sabe, os esforços de Fernando Haddad, ministro da Fazenda, no sentido de negociar com autoridades norte-americanas, resultaram em nada. Para o vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin, “eventual conversa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Trump depende de ‘preparo’”. Segundo o ministro Haddad, “o governo brasileiro continua as negociações” (O Estado, 1/8, pág. BI).
Em minha avaliação, por tudo que vejo, leio e ouço, Lula é a única pessoa apta a conversar com o presidente Trump. S. Exa., entretanto, comporta-se com uma combinação de arrogância, inabilidade e medo. A tentativa de conquistar o apoio da China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Irã e Rússia, países membros do Brics, exigirá difícil costura diplomática, incompatível com as urgentes necessidades dos exportadores brasileiros.
Grandes, médias e pequenas empresas, mantém número de empregados proporcional ao seu tamanho e necessidades. A folha de pagamento salarial deve estar fechada no dia 30 e o pagamento efetuado até o quinto dia útil do mês subsequente ao vencido, conforme manda o art. 459, § 1º, da CLT. O atraso salarial, do recolhimento do FGTS, e da contribuição devida ao INSS acarreta problemas quase insolúveis, como sabem os empresários que já passaram por essa experiência. Além dos salários, há despesas com energia elétrica, água, lubrificantes, impostos e taxas, serviços de vigilância e de manutenção.
No plano trabalhista, o presidente Lula atua ignorando os encargos patronais e que o trabalhador programa a vida de acordo com os salários. Precisa estar seguro de que no começo do mês será pago. Os salários são parte das engrenagens que imprimem movimento à economia. Como se sabe, um emprego direto pode gerar até 10 empregos indiretos, ou mais. O rompimento do elo principal da cadeia de empregos, repercutirá, necessariamente, em todos demais.
A defesa dos interesses do País, na questão do tarifaço, não deve ser conduzida ignorando-se, como tem feito Lula, as necessidades imediatas das classes trabalhadoras. Produtores e exportadores empregam centenas de milhares de trabalhadores, dependentes da pontualidade dos salários.
Experiências com férias coletivas não deram bons resultados. O período de férias termina, e as máquinas devem ser religadas. Serão bem-sucedidas as negociações com os países do Brics? Ninguém sabe. O melhor e talvez único caminho é com quem decretou o tarifaço.
A Lula não resta alternativa senão empunhar o telefone e ligar para Donald Trump. É isto que desejam os trabalhadores com salários atrasados e empregos ameaçados.