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Brasil e Estados Unidos: há que se buscar maior convergência – por Paulo Roberto Guedes

Os motivos pelos quais os EUA invadiram a Venezuela e sequestraram seu presidente, Sr. Nicolás Maduro, são os mais diversos possíveis. E todos, ao fazerem comentários a respeito, procuram, mais do que explicar, justificá-los. Eu inclusive.

Entretanto, existe uma resistência absurda, a meu ver, de não classificar as atitudes norte- americanas como uma violência que, além de ir contra o que dizem os ‘manuais’ de direito, notadamente o internacional, e as regras que ‘regulam’ a relação entre países, cria exceções e precedentes extremamente perigosos.

E se o uso da força parece ter sido a solução final, pergunta-se: embora com características e circunstâncias diferentes, Rússia, com relação à Ucrânia, e China, com relação à Taiwan, poderão ter aprovação de todos se adotarem comportamentos semelhantes?

Ora, mas invadir países e sequestrar presidentes ou ditadores, não foi e não é exclusividade do Donald Trump. Os presidentes Bush (Iraque e Afeganistão), Clinton (Somália, Bósnia e Herzegovina, Sudão e Afeganistão e Iraque) e Obama (Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Paquistão, Iêmen e Somália) já fizeram isso. Ações sempre muito bem justificadas. E, se não estiver enganado, sem tanto alvoroço.

Em minha opinião, não há qualquer dúvida que os EUA, agora no caso da Venezuela, ao invadirem Caracas, a capital de um país soberano, e sequestrarem seu presidente, construíram mais um exemplo desse método, fugindo a qualquer tipo de compreensão que tenha a coerência política como característica, pois os EUA ignoraram a soberania, os direitos, a segurança e os interesses venezuelanos, além de violar os princípios do direito internacional. Acrescente-se a isso o fato de que o presidente do executivo norte-americano, Sr. Donald Trump, deixou de consultar, ou melhor, até de informar, o Congresso Nacional daquele país a respeito dessas
ações.

Não menos importante, segundo pesquisa da Reuters/Ipsos, apenas 33% dos norte-americanos aprovaram o ataque à Venezuela.

De qualquer forma, não é preciso ser autoridade em relações internacionais ou em diplomacia, muito menos ser profundo conhecedor do direito internacional ou dos direitos humanos, para entender que essas ocorrências são um ‘tipo’, seja ele qual for, de violência. Parece que, ao contrário de seu discurso de posse, Donald Trump quer fazer os EUA serem, novamente, os ‘xerifes’ do mundo. E agora, e mais precisamente, da América Latina.

Lembremo-nos, entre outras (1), que a principal explicação de Trump, para a ação norte- americana, a de que o Sr. Nicolás Maduro chefiava um cartel responsável pela produção e exportação de drogas, o tal do “Cartel de los Soles”, já foi deixada de lado, uma vez que o cartel não existe. Na verdade, esclareceram as próprias autoridades norte-americanas, ‘Cartel de los Soles’ foi um termo inventado lá pelos anos de 1990, para designar as autoridades da Venezuela que eram corrompidas pelo narcotráfico. A própria Agência Anti Drogas dos EUA, em suas avaliações anuais, jamais citou o nome desse cartel. Parece que agora a promotoria norte-americana prepara uma nova acusação a Maduro: conspirar para fazer crescer o tráfico de drogas.

Devo aqui, fazer uma observação que se faz importante: o Sr. Nicolás Maduro é um ditador, que perseguiu e prendeu pessoas, a imprensa, censurou as informações e o noticiário, ignorou as liberdades e as instituições democráticas, forjou a seu favor eleições e cometeu uma série de crimes, incluindo assassinatos. Além do que, levou a Venezuela a um total caos e os venezuelanos à pobreza. E por isso deve ser rigorosamente julgado e punido. Mas em seu País e por autoridades, até internacionais, que tenham competência para isso. Afinal como escreveu o jornalista Bret Stephens do NYTimes (Estadão do último dia 8), o direito internacional “não pode se tornar um escudo atrás do qual déspotas em todos os lugares, podem fazer o que bem entenderem com seu próprio povo”.

Presidente ilegítimo ou não, aliás como tantos outros presidentes ou ditadores em todo o mundo, que jamais foram ‘importunados’, a verdade é a de que os EUA não dão a mínima importância a respeito de como o Maduro governava a Venezuela. E isso se comprova quando se lê alguns dos diversos discursos do Sr. Trump, quando ele prioriza a preparação de um conjunto de atividades que recuperem o parque petrolífero, de forma a retomar os antigos níveis de produção e de exportação de petróleo, com participação efetiva das empresas norte-americanas. Trump: “o dinheiro da venda do petróleo venezuelano será controlado por mim”.

Pouco importa ao Sr. Trump – a conferir – se será possível reconduzir a Venezuela à democracia. Tanto que não há, pelo menos até agora, qualquer plano de ação a respeito. Considere-se, inclusive, que Trump e o governo norte-americano terão que descobrir como fazer, caso seja possível, a Venezuela alterar seu regime atual e tornar-se um país democrático, com um governo legítimo e com eleições (2).

Embora muitos países tenham sido ‘conservadores’ em suas opiniões com relação a esse terrível evento, para dizer o mínimo, muito notadamente os europeus, o governo brasileiro, com razão, condenou o uso da força e defendeu a soberania e a autodeterminação da Venezuela e reconheceu a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodrigues, como presidente interina.

Vale lembrar que o Brasil tem destacado como ponto de muito cuidado, a crise humanitária da região, que se já era muito ruim, tem todas as condições para piorar. O Brasil, constate-se, assim como outros países, já vem trabalhando concretamente para ajudar os refugiados.

Mas afinal quais são os verdadeiros objetivos dos EUA ao invadirem a Venezuela, já que há muitos comentários a respeito? Cito, a seguir, algumas opiniões que me parecem importantes.

O jornalista Bret Stephens, aqui já citado, deixa claro que um dos motivos é a necessidade de se ampliar a influência dos norte-americanos em toda a América Latina. Além, é claro, de se obter muito dinheiro com a venda do petróleo da Venezuela que, como diz Trump, era dos EUA e foi tomado pelo governo Chaves. Observação importante: cálculos de organismos internacionais especializados dão conta de que, até o final desta década, a oferta de petróleo poderá permanecer em níveis superiores à demanda (pressão para baixar o preço: US$ 50 o barril?).

Já o jornalista Eugênio Bucci, em artigo específico (“Humilhação espetacular”), publicado no Estadão do último dia 8, cita quatro principais razões: “Além das razões geopolíticas (que levam a Casa Branca a tentar expulsar as influências russas e chinesas do mar do Caribe e da América do Sul), além das pressões exercidas sobre o presidente pela indústria petrolífera norte-americana (que quer beber o óleo extrapesado das águas venezuelanas) e além da ameaça de perda de popularidade interna (que o governo imagina conseguir desviar com agressividade bélica em plagas estrangeiras), há um quarto fator a se levar em conta”. “Esse quarto fator é a
imagem, a comunicação, a propaganda no seu sentido mais superlativo. Não se pense que seja apenas uma questão de modular a fala ou de escolher ‘a melhor mensagem para o melhor momento”
(3).

No dia 28.07.2025, eu publiquei, no site da Logweb, artigo que procurava fazer algumas observações a respeito das providências e do ‘tarifaço’ impostoz pelo governo Trump ao Brasil. Cheguei, inclusive, a escrever “que as atitudes do presidente americano são reações de quem sente (ou supõe) que terá, na medida em que o mundo se torna cada vez mais multipolar, dificuldades econômicas e geopolíticas cada vez maiores”.

Naquela oportunidade perguntava-me se o PIX, fartamente utilizado aqui no Brasil e operando “fora do sistema do dólar e dos sistemas de pagamentos tradicionais”, por exemplo, se constituiria em “algum risco para a manutenção da hegemonia do dólar e do sistema financeiro e de pagamentos atuais”. A pergunta era pertinente, considerando a crítica feita pelo sr. Trump ao PIX.

Ora, é de conhecimento de todos que parte do poderio norte-americano está no fato de ter tido sua moeda, o dólar, transformado em padrão monetário mundial (4). Sem dúvida, além de ser o único país autorizado pela sua emissão, o dólar se tornou padrão monetário para a quase totalidade das operações comerciais (compra, venda, pagamentos e recebimentos) e financeiras (empréstimos, investimentos, financiamentos, entesouramento etc.) do planeta. Importante: uma grande quantidade de dólares emitida, mas circulando fora do território norte-americano, isto é, funcionando para atender às demandas mundiais, não tem efeitos inflacionários para os EUA.

Em 1974, por exemplo, o então premier norte americano, Henry Kissingir ‘exigiu’, por conta de proteção militar e econômica, que a Arábia Saudita somente vendesse seu petróleo em dólares. Contrariamente, em 2018, ao dizer que se ‘libertaria do dólar’, a Venezuela começou a vender seu petróleo em yuan chinês. E sempre que possível, passaram a aceitar euros, rublos etc. O próprio Brics tem aventada a hipótese de não mais utilizar o dólar como meio de pagamento entre os países do bloco.

Em 1985 uma crise maior, com relação ao poder do dólar não ocorreu, porque o Acordo de Plaza manteve algumas das principais moedas de reserva do mundo, alinhadas ao dólar. Mas já para um dólar mais fraco do que em épocas anteriores.

Em resumo: quanto maior a demanda pelo dólar em todo o mundo, como moeda transacional, maior o preço dessa moeda no mercado e menor a pressão sobre a inflação no território norte-americano. Em tempo: se a negociação do combustível existente na Venezuela (mais de 300 bilhões de barris!) e nos principais países que trabalham com esse produto, por exemplo, for realizada somente em dólar, muito melhor e mais conveniente para os EUA, sem dúvida (5).

Por outro lado, essa extraordinária condição somente poderia ser mantida se os EUA cumprissem com algumas exigências, tais como a estabilidade na política e na economia, previsibilidade, responsabilidade fiscal, respeito ao Estado de Direito, superávits em seu conta corrente e produtividade crescendo a taxas acima da produtividade do ‘resto do mundo’. Resultados diferentes significariam quedas no poder de compra do dólar e, também, desvalorização dos títulos americanos. Vale lembra, risco que existiu em diversas oportunidades (6).

Não há dúvidas que as dificuldades atuais são muito maiores e “manobras” para evitar uma queda mais acentuada do dólar, como aquelas utilizadas no passado, são quase impossíveis de serem realizadas. Sem dúvida, novos desafios são colocados à frente, principalmente se consideramos que o ‘poderio norte-americano atual’ é menor e a ascensão da China é um fato indiscutível.

Não à toa, em discurso inflamado, Donald Trump afirmou que esse ‘pilar’ – supremacia financeira do dólar – jamais será destruído e esta é, sem dúvida, “a verdadeira guerra” a ser travada. Pois é, se considerarmos que o déficit público americano é de quase 7% do PIB, que a dívida pública atual equivale a 124% do PIB (cerca de US$ 35 trilhões) e que juros anuais à pagar estão próximos do US$ 1 trilhão, “reforçar a demanda global por sua moeda e seus títulos” parece ser a providência mais importante. Não só fundamental, mas também essencial. Somente isso pode explicar essa narrativa, posto que demonstra a dificuldade que teriam os EUA se houvesse a substituição do dólar por qualquer outra moeda. Ressalte-se: a moeda norte-americana ainda é o principal símbolo e pilar do que resta da supremacia econômica norte-americana. De qualquer forma a solução, pelo menos para o Sr. Trump, está no protecionismo exagerado e, agora como vimos, na pressão através da força.

Aliás, foi o que disse, já há algum tempo, o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, quando afirmou que o objetivo principal é usar a máquina do Tesouro para travar essa “guerra” nos mercados, empregando táticas especulativas que garantam a supremacia do dólar e o financiamento da dívida americana, custe o que custar para a estabilidade global.

Fato inconteste é que o comportamento do Trump e as medidas por ele adotadas, internas e externas, estão diminuindo a credibilidade e a confiança que o mundo depositava nos EUA, inclusive em seus “papéis e moeda”. Como escrito no artigo do Estadão do dia 27/07/25, “a combinação de desordem nas contas públicas, instabilidade institucional e nacionalismo econômico é tóxica para a credibilidade de qualquer moeda” (“O império do dólar e seu maior inimigo”).

Donald Trump sabe disso e, portanto, tem medo de que o aumento da pluralidade e das negociações entre blocos independentes, por exemplo, transformem o dólar apenas em uma referência e não mais em um instrumento de poder, situação na qual os “EUA não conseguem mais rastrear, tributar nem bloquear transações”.

E aí, além de todos os demais motivos aqui listados, está um problema enorme para ser resolvido pelo governo norte-americano: a manutenção da supremacia do dólar perante todas as demais moedas do mundo.

De qualquer forma, em face das circunstâncias da época em que escrevi meu artigo, defendi que o Brasil deveria agir. Ousada e particularmente, como consequência, listei algumas providências consideradas essenciais, cuja transcrição se encontra abaixo (7). Mas é evidente que o ‘pragmatismo trumpista’, exemplificado nas ações das últimas semanas, considerando tudo o que aqui foi escrito, e considerando o que escreveu o jornalista Eugênio Bucci (8), de que para Trump “o espetáculo é que condiciona e determina todo o resto”, as condições geoeconômicas e geopolíticas em todo o mundo foram profundamente abaladas, passando a ser fundamental,
daqui para a frente, que não mais se ignore, mesmo depois de mais de duzentos anos de boa convivência entre Brasil e EUA, que a incerteza e a desconfiança estão instaladas na relação dos dois países. Até porque nem todos os objetivos de cada um dos países tem a mesma convergência que outrora.


(1) Inicialmente o senhor Maduro foi acusado de narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína e
posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos.

(2) “Seja a falha em remover o regime uma omissão potencialmente desastrosa ou parte de um plano ainda
não revelado, o governo (norte-americano) terá que descobrir como se livrar dele de vez em favor de um
governo legítimo, estável e democraticamente eleito. E terá que oferecer aos americanos e ao resto do
mundo, uma explicação convincente para isso” (Bret Stephens, jornal NYT de 07/01/26).

(3) Para o trumpismo, a propaganda açambarca toda a episteme, mais ou menos como aconteceu com o
nazismo”. “Segundo essa doutrina, existir é aparecer, não importa a que custo e não importa para quê.
Aparecer implica empalidecer a imagem do outro”.

(4) Desde a Conferência de Bretton Woods de 1944, os EUA, em face de seu poder político-econômico-
militar, domínio geopolítico e estabilidade econômica, teve sua moeda alçada à condição de principal
meio de troca global, reserva de valor preferencial e, portanto, centro do sistema financeiro internacional.
Segundo os franceses, um “privilégio exorbitante”.

(5) Donald Trump comentou que a ideia de realizar uma operação militar, também contra a Colômbia, é boa,
pois assim “ninguém nunca mais questionará o poderio americano no nosso hemisfério”. A Doutrina
Monroe, de outros tempos, era o jeito de defender a hegemonia norte-americana em toda a América
Latina. Só que, agora, com uma excelente oportunidade: “explorar as reservas de petróleo existentes”.

(6) Guerra do Vietnã, crise no Governo Nixon, que decretou o fim da convertibilidade dólar-ouro, aumento
das competitividades do Japão e da Alemanha, com fortes perdas para a indústria norte-americana e a
crise financeira de 2008, são alguns dos exemplos nos quais a moeda norte-americana correu sérios
riscos.

(7) Alguns pontos considerados como fundamentais:

a) Investir muito em suas relações diplomáticas;
b) Criar alianças táticas e evitar que se construam novas barreiras comerciais com o exterior, incluindo-se, e
principalmente, com os países parceiros;
c) Apoiar todos os agentes de sua economia, mais notadamente aqueles setores diretamente afetados pelos aumentos das taxas de importações impostos pelos EUA;
d) Desenvolver e estabelecer um conjunto de políticas que incentivem a busca por novos mercados, diminuam nossa dependência junto às “Big Techs” e acelerem alternativas estruturais;
e) Negociar “à exaustão” com os norte-americanos, buscando um retorno, mesmo que parcial, à normalidade comercial e ao reestabelecimento do excepcional relacionamento que caracterizou, por mais de duzentos anos, o convívio entre os dois países.

(8) Eugênio Bucci: “Na natureza do trumpismo, a dimensão do espetáculo é mais determinante que a
dimensão geopolítica (a vigilância das “áreas de influência”), a dimensão econômica (representada no
caso presente pelas companhias de petróleo) e a dimensão da política interna (especialmente quando
bate em índices de popularidade). O espetáculo condiciona e determina todo o resto” (Estadão do dia
08/01/26).

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