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Chatbots no divã: quando a Inteligência Artificial vira confidente – por Cristiane Sanchez

É madrugada. A casa está em silêncio. O celular acende no escuro e, do outro lado da tela, alguém responde. Não julga. Não interrompe. Não se cansa. Para muita gente, essa “presença” tem sido suficiente para atravessar noites difíceis.

Mas o que exatamente está acontecendo quando passamos a conversar com uma inteligência artificial sobre nossas dores? Estamos diante de um novo tipo de dispositivo de saúde ou apenas de um paliativo elegante para a solidão contemporânea?

A pergunta deixou de ser futurista. Ela já é social, clínica e ética.

A solidão virou um dado, não só um sentimento

Durante muito tempo, solidão foi tratada como algo íntimo, quase constrangedor. Hoje ela aparece em relatórios de saúde pública. Em junho de 2025, a Organização Mundial da Saúde divulgou que 1 em cada 6 pessoas no mundo é afetada pela solidão. Mais do que um mal-estar subjetivo, a solidão foi associada a cerca de 871 mil mortes por ano, o equivalente a aproximadamente 100 mortes por hora relacionadas a seus impactos na saúde física e mental.

O relatório também mostrou que a prevalência é maior em países de baixa renda, onde cerca de 24% das pessoas relatam solidão, comparado a aproximadamente 11% em países de alta renda. Entre jovens de 13 a 29 anos, os índices variam entre 17% e 21%.

No Brasil, dados do ELSI-Brasil, estudo nacional com adultos com 50 anos ou mais, revelaram que 16,8% relataram sempre sentir solidão, 31,7% algumas vezes e 51,5% nunca. A solidão persistente esteve fortemente associada à depressão, pior percepção de saúde, sono ruim, morar sozinho e baixa escolaridade.

Esses números ajudam a entender por que tanta gente passou a procurar acolhimento onde ele está disponível: na tela.

Por que a IA parece tão acolhedora

Os chatbots oferecem algo que o mundo atual nem sempre entrega: disponibilidade ininterrupta. Eles respondem imediatamente, mantêm o foco na pessoa que escreve e não demonstram impaciência. Para quem vive isolamento, vergonha ou dificuldade de acesso a atendimento psicológico, isso pode funcionar como um primeiro respiro.

A imprensa médica já vem discutindo o uso crescente de chatbots como “confidentes digitais”, especialmente entre jovens. O fenômeno é interpretado por alguns como democratização do apoio emocional. Afinal, nem todos têm acesso a terapia, e listas de espera em serviços públicos são uma realidade global.

O problema começa quando confundimos disponibilidade com cuidado clínico.

O alerta das entidades científicas

A American Psychological Association publicou um advisory alertando para o uso indiscriminado de chatbots de IA generativa na saúde mental. A entidade destacou a necessidade de desenvolvimento baseado em evidências científicas e testes rigorosos antes que essas ferramentas sejam tratadas como substitutas de cuidado profissional.

Outra discussão relevante surgiu a partir de pesquisas conduzidas pela OpenAI em parceria com o MIT Media Lab, divulgadas pela imprensa internacional. O estudo indicou que usuários intensivos de chatbots tendiam a relatar maior solidão e sinais de dependência emocional. A própria análise reforçou que não se pode concluir causalidade direta, mas a associação acende um sinal de alerta: quem já está mais isolado pode recorrer mais à IA, e o uso excessivo pode reforçar padrões de retraimento social.

Pesquisadores vêm debatendo se a interação com modelos de linguagem pode aliviar momentaneamente a sensação de isolamento, mas não substitui necessidades humanas profundas ligadas a vínculo, pertencimento e reciprocidade emocional real.

E aqui está o ponto central: empatia simulada não é empatia vivida.

Paliativo ou ponte?

Seria injusto demonizar a tecnologia. Em muitos contextos, conversar com um chatbot pode ajudar alguém a organizar pensamentos, receber informações básicas sobre saúde mental, refletir sobre hábitos ou até criar coragem para buscar ajuda profissional.

Como ferramenta complementar, a IA pode ter papel relevante. Pode orientar sobre higiene do sono, sugerir estratégias de enfrentamento baseadas em psicoeducação ou oferecer suporte inicial em momentos de angústia leve.

O risco aparece quando ela passa a ocupar o lugar das relações humanas. Quando substitui amigos, família, grupos sociais ou atendimento qualificado. Quando vira o único espaço de desabafo.

Solidão não é apenas ausência de diálogo. É ausência de conexão. É a falta de alguém que nos afete e seja afetado por nós.

O que fazer diante desse cenário

A pergunta não é se devemos usar inteligência artificial. A pergunta é como.

Se a tecnologia ajuda você a se aproximar do mundo real, ela pode ser aliada. Se ajuda a organizar a rotina, melhorar o sono, refletir sobre emoções e, principalmente, buscar contato humano quando necessário, ela cumpre um papel saudável.

Mas se a conversa digital começa a substituir vínculos reais, reduzir encontros presenciais ou se tornar a única fonte de apoio emocional, é hora de rever o equilíbrio.

A solidão é um fenômeno de saúde pública. Não será resolvida apenas com algoritmos. Precisamos de políticas sociais, redes comunitárias, espaços de convivência, acesso ampliado à saúde mental e educação emocional.

Se a conversa digital termina e você fecha o celular mais isolado do que antes, algo precisa ser revisto. Se ela substitui completamente encontros, chamadas, convivência, cuidado profissional quando necessário, o preço aparece no corpo.

A pergunta então deixa de ser apenas ética ou tecnológica. Torna-se biológica.

Estamos usando a inteligência artificial para ampliar nossa saúde ou para anestesiar nossa carência?

Talvez o verdadeiro desafio desta década não seja criar máquinas que conversem melhor.
Seja criar sociedades que se conectem melhor.

Referências

World Health Organization. Social connection linked to improved health and reduced risk of early death. News release, 30 June 2025.
https://www.who.int/news/item/30-06-2025-social-connection-linked-to-improved-heath-and-reduced-risk-of-early-death

World Health Organization. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies. 2025.
https://www.who.int/publications/i/item/978240112360

Sandy Júnior PA, Borim FSA, Neri AL. Solidão e sua associação com indicadores sociodemográficos e de saúde em adultos e idosos brasileiros: ELSI-Brasil. Cadernos de Saúde Pública, 2023.
https://doaj.org/article/1f7deb3eac02408fbb5f6b439ddc3b78

American Psychological Association. Health Advisory on the Use of Generative AI Chatbots and Wellness Apps for Mental Health.
https://www.apa.org/topics/artificial-intelligence-machine-learning/health-advisory-ai-chatbots-wellness-apps-mental-health.pdf

The BMJ. AI chatbots and the loneliness crisis.
https://www.bmj.com/content/391/bmj.r2509

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