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De mil passarás, a dois mil não chegarás – por José Crespo

(Adaptação de uma antiga e moderna crônica do grande advogado Walter Ceneviva, falecido recentemente)

Estamos novamente na quaresma, que deveria ser o maior retiro espiritual do ano, para refletirmos sobre o significado da ressurreição de Jesus, o Cristo.

Ele foi, sem dúvida, o mais célebre “subversivo” da história. Do perigo que representou para a ordem constituída, basta dizer que terminou na cruz, a pior sentença de morte jamais vista.

As questões processuais envolvendo Jesus foram objeto de dupla apreciação, com o mesmo resultado, nos tribunais religiosos e na corte dominadora. Seus patrícios, conforme se lê no novo testamento, o deram como incurso em duas ofensas gravíssimas, entendendo que se voltou contra ensinamentos bíblicos tradicionais e fez afirmações blasfemas a seu próprio respeito. Os ministros do supremo sinédrio, decidiram que a pena capital lhe deveria ser aplicada.

A condenação religiosa foi completada pela civil. O governo via nele um agitador, que questionava o poder de César. Pôncio Pilatos era o representante do imperialismo romano, quase um ministro. Sua esposa, Cláudia, o influenciou para indultar Jesus, ato possível na páscoa judaica; tudo leva a crer que ela tenha se deixado seduzir pelas ideias do subversivo.

Sentindo-se dividido, Pilatos afirmou que libertaria um dos condenados, mas era o povo quem escolheria. A cena foi parecida, mal comparando, com aquele programa do Chacrinha: “É este ?” – e parte da multidão aplaudia. ‘”Ou este ?” – e os aplausos competiam, na escolha entre Jesus e Barrabás. Mas a decisão não foi “democrática”, pois os sacerdotes do sinédrio fizeram correr dinheiro para garantir que Barrabás fosse o escolhido.  

E três dias depois, quando Jesus ressuscitou, foi o mesmo sinédrio quem corrompeu os atônitos soldados do sepulcro, para que alardeassem que o corpo tinha sido roubado pelos discípulos.

Não há nada de novo sob o sol, como se percebe. A corrupção entre os governantes, nos três poderes da república, prevalece abertamente, agora sem quaisquer pudores. Vendem-se os aliados, os inocentes e o povo todo, pelas mesmas trinta moedas de prata.

Os paletós azuis e as togas pretas da vergonha e da desonra, passaram a ser a última palavra, e a mediocridade, o seu epíteto.

Diante da realidade de dois milênios, perde expressão anotar que faltou a Jesus um bom advogado. Pelo menos sua ressurreição fez a redenção de todas as suas boasnovas, o que deu sentido à vida e salvação do gênero humano, até hoje.

Diante da atual perda de valores e da completa desagregação da sociedade, sem que se vislumbre sequer algum prenúncio de solução, resta-nos orar nesta quaresma pela segunda volta do Messias.

Tomadas literalmente suas palavras, “de mil passarás, a dois mil (a contar do ano 33, o da cruz) não chegarás”, está faltando pouco.

Olhando a conturbação, a violência e a corrosão do mundo presente, é bem possível que Cristo, recordando os achincalhes de que foi vítima, esteja cogitando que, da primeira vez, perdeu mais do que sua vida, perdeu seu tempo. ///

José Crespo é presidente do ICPP – Instituto de Cidadania e Políticas Públicas, e foi deputado estadual na ALESP durante três mandatos consecutivos.

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