É comum os alunos do curso de oratória me perguntarem: posso treinar a apresentação na frente do espelho? Posso andar enquanto estou ensaiando? Devo treinar falando em voz alta ou posso exercitar apenas mentalmente? É melhor fazer o ensaio sozinho ou é mais produtivo diante de outras pessoas?
E os questionamentos não param por aí. Alguns querem descer aos pormenores. Perguntam se podem escrever todo o discurso para se preparar ou se é melhor se basear em algumas frases, como um roteiro. Questionam também se há problema em preparar, mas não deixar de improvisar já durante a apresentação.
Seu método funcionou?
Respondo quase sempre com uma pergunta: você já se valeu de alguns desses métodos? Qual foi o resultado? Se deu certo, o método é bom. Se não deu, podemos ver onde está a falha. Não existe apenas uma forma de se preparar, o importante é que funcione. Desde que o orador se sinta à vontade e atinja seus objetivos, o método utilizado receberá a chancela de aprovado.
Ainda que o método tenha passado pelo controle de qualidade, nada impede que outros sejam testados. Talvez o orador tenha ido bem, mas pudesse ter se saído melhor. Vale experimentar, testar e medir os resultados caso a caso, de preferência em situações de menor pressão, como pequenas reuniões. Nunca nos eventos mais importantes.
O que pode dar mais certo?
Você poderia perguntar: ok, entendi que tudo pode funcionar, mas não há uma ou outra maneira que geralmente dá melhores resultados? Sim, há caminhos que quase sempre são mais favoráveis. Não significa, como vimos, que será assim com você. Mas vale a pena conhecê-los.
Treinar na frente do espelho, embora seja um método recomendado pela maioria, tem suas ressalvas. Quem já se viu nessa situação vai se lembrar: não sabe se fala olhando os pés, para as mãos, para o rosto. São distrações que podem prejudicar a concentração na mensagem.
A parede como substituta
É preferível ensaiar várias vezes a uns três metros de distância de uma parede, preocupado apenas com a mensagem. Quando sentir que já tem domínio do discurso, aí sim poderá se apresentar diante da câmera do celular. Se perceber algum ponto a aperfeiçoar, volte à parede. Assim, não se sentirá desestimulado.
O roteiro escrito, de maneira geral, dá mais resultado do que ter tudo no papel de ponta a ponta. O orador se sente amparado pela sequência lógica da apresentação e tem liberdade para desenvolver o raciocínio sem ficar preso ao texto. Grandes oradores, até com projeção internacional, se valem desse recurso, e ainda levam o roteiro ao evento para ter mais segurança.
Os grandes mestres da oratória religiosa
Ainda assim, esses são caminhos trilhados por quem foi bem-sucedido, não receitas obrigatórias. Alguns se sentem muito bem ensaiando diante do espelho. Outros ficam mais à vontade com o discurso escrito nos mínimos detalhes. O importante na comunicação é o resultado.
E por falar em métodos que fogem do convencional, a história da oratória guarda alguns casos que merecem ser conhecidos. Lacordaire, considerado o maior orador do século 19, ensaiava seus discursos no jardim do convento onde vivia, falando para as flores. Enxergava em cada pétala a plateia que encontraria pela frente. Depois ia para a catedral de Notre Dame e encantava multidões.
Frei Francisco do Monte Alverne, um dos maiores pregadores da nossa história, tinha método parecido, com uma diferença botânica: o seu público imaginário eram os repolhos da horta do convento. Menos poético, igualmente eficiente.
Quem sofre o mais, suporta o menos
A literatura registra casos ainda mais radicais. Em “Memórias de uma Gueixa”, as aprendizes mergulhavam as mãos em água gelada até gritar de dor e depois tocavam seus instrumentos no pátio frio. A lógica era dura, mas funcional: quem aprende a se apresentar em condições extremas encara o medo do palco como um problema menor.
O cinema também contribui para esse folclore. Em “Encontro de Amor”, um candidato ao senado confessa que descarrega o nervosismo segurando um clipe durante os discursos. Detalhe importante: objetos usados como âncora emocional precisam fazer parte do contexto da apresentação. Uma caneta na mão de quem está em pé diante de uma plateia vira distração. A mesma caneta na mão de quem conduz uma reunião sentado é absolutamente natural.
O que a história nos ensina é que o caminho para falar bem em público passa por lugares surpreendentes. Jardins, hortas, cubos de gelo, clipes e canetas. O importante é chegar lá, falar com confiança e conquistar a plateia. O método é detalhe. O resultado é o que fica.












